Cutucando Coyote
Escrito por Claudinei Vieira   
Sáb, 05 de Setembro de 2009 23:49


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Beatriz Bajo

e estamos misturados nessa estória
a noite é que te colore em minhas horas acesas
assim flexionando o que é nosso
 
escute meus murmúrios de quase ouvido no vento de teus versos

o vento é instante que acena quando passa
não fuja, solte-o
sinta a bofetada no rosto
que estilhaça cristais

rasgo que alcança a verve

triture gelo
nada que se conserve

bom comer-se,
mastigar todos os pedacinhos da última foto
e vomitar margaridas
 
 
 
COMER BORBOLETAS
Beatriz Bajo

1/2.
cada beijo é como comer borboletas
para que as matizes de dentro se libertem, se debatam
no assanhar das asas
entre os predicados que traquinam no diafragma
que raia em transversais contrações
ventos adverbiais

1/3.
assim que se deitou
sobre meu pé tão delicadamente
trouxe-me algo de fenda
algo de talho, latente
entre os batentes da minha janela
adentrando pelos basculantes
roendo as sementes

2. 
o dia inteiro nascia dentro de mim




O TERRORISTA, ELE OBSERVA
Wislawa Szymborska

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar.
Alguns de sair.

O terrorista já cruzou para o outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo
e a vista, bom, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele cara mais baixo tem sorte, sai de lambreta,
Aquele mais alto, entra.

Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa com uma fita verde no cabelo.
Só que o ônibus a encobre de repente.

Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se foi tola de entrar ou não
vai se saber quando os carregarem para fora.

Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Remexe os bolsos como se procurasse algo
e faltando dez segundos para as treze e vinte
volta para buscar a droga das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
O tempo, como ele voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.
 
(tradução: Regina Przybycien) 
 
 
 
Fuçar pelas páginas da revista Coyote sempre traz emoções, re/descobertas e redesenhos dos que mesmo que relidos e reconhecidos nunca deixa de nos surpreender. A beleza que se transfigura e exala pela sua composição gráfica arrojada e textos transbordantes de sentido e paixão. Os poemas citados acima, os quais particularmente gosto muito, são da edição anterior, de número 18.
 
Para dizer da última edição, a Coyote 19, a fala mais apropriada de Zema Ribeiro, lida no blog do Ademir Assunção, o Espelunca:
 

 
TRIBUNA CULTURAL
por Zema Ribeiro*
 
UIVOS E APLAUSOS À RESISTÊNCIA
 
Revista de literatura e arte, Coyote alcança 19ª. edição, nadando contra a corrente, remando contra a maré. Que editores e colaboradores consigam ir ainda mais longe, amém!
 
Thomaz Albornoz Neves entrevistou, em 1993, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no apartamento carioca do autor de Morte e vida Severina. Apenas uma pequena parte da conversa entre os dois foi publicada na revista Interpoesia, em 1998. O resto permanecia inédito. O 19º. número da Revista Coyote [Kan Editora, distribuição nacional: Iluminuras, 52 páginas, R$ 10,00, pedidos pelo http://www.sebodobac.com.br; alô, livrarias e sebos de São Luís: ninguém se interessa?] traz a íntegra da entrevista com o “cabra lírico”. E este é apenas um dos destaques da revista de literatura e arte que, só por conseguir resistir e chegar a esta 19ª. edição, já merece nossos uivos, digo, aplausos (que tal uivarmos batendo palmas?), pela resistência, insistência, perseverança e, mesmo, teimosia de seus editores.
 
Ademir Assunção (SP), Marcos Losnak (PR) e Rodrigo Garcia Lopes (PR), inventam e reinventam a publicação sediada em Londrina (PR) e que resiste bravamente, até aqui – e esperamos que por muito tempo ainda –, graças ao apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina. Engana-se quem pensa que, com isso, a revista se fecha no próprio umbigo e traz apenas poetas da terra de Leminski. Muito ao contrário: é na Coyote que conheço novas vozes nos campos a que se dedica a publicação (literatura e arte, convém lembrar) e (re-)leio vozes, não direi velhas – há coisas que simplesmente não envelhecem –, mas fundamentais.
 
Com um belíssimo projeto gráfico, a revista transpira qualidade da primeira à quarta capa: tudo ali é arte. A “matilha” da 19, além de João Cabral e seu entrevistador Thomaz Albornoz Neves, e do editor (da revista) Ademir Assunção – que brinda o público leitor com poemas inéditos –, apresenta nomes como George Oppen (poeta ianque do Grupo Objetivista, formado nos anos 30, falecido em 1984), Teo Adorno (quadrinista e ilustrador paulista) e Ernesto Sabato (doutor em física nuclear, um dos maiores nomes da literatura argentina, nascido em 1911), entre outros, além da tradicional quarta capa, ilustrada pelo Beto, já reconhecida como a capa dos “movimentos”.
 
TRECHOS DA COYOTE 19
 
“Tenho a impressão que, por um lado, sou muito mais visual que plástico, por outro não sou nada auditivo. Estou com Voltaire, a música é o menos desagradável dos barulhos. Eu não tenho o menor interesse por música. (...). Minha poesia é toda visual: ela se afasta da linguagem abstrata. A linguagem que me interessa é a linguagem concreta. Meu esforço é justamente, usando o título do livro de Paul Éluard, Donner a Voir [Dar a ver]”.
 
João Cabral de Melo Neto, em entrevista a Thomaz Albornoz Neves, em 1993
 
*
 
“luzes esverdeadas na tela/ da TV, pipocas de microondas,/ pipocos digitais, sim,/ olha lá, olha lá, santelmo/ riscado do mapa,/ cochabamba para bailar la bamba,/ titicaca não passa de titica,/ brasília era só uma ilha, cercada/ de cucarachas e carcamanos,/ quem vai sentir falta/ dessas baratas?, soca mais bombas/ na bunda dessa indiarada, pow,/ crash, soc, e que se fodam/ todos los hermanos, cambada/ de terroristas islâmicos,/ papai me disse que eles comem/ gente, vai vendo, e ainda usam as tíbias/ como palitos de dente”
 
Ademir Assunção, Videogame, da seleta de inéditos Boa noite, Mister Mistério
 
*Zema Ribeiro escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com
 
 
 
Comentários (3)
  • Hijak Skank  - BEATRIZ
    Caro fico feliz por VER a La Bajo aqui neste sítio e saber da produção da guria, além de bela e coração imenso sua literatura vai de vento em popa...Viva La Bajo!!!!!
  • Beatriz Bajo  - PRESENTE
    ahhh, mas que gentileza mais deliciosa!! muitíssimo grata pela lembrança, queridos! ;)
    amplexos
  • claudinei vieira  - Bajo
    opa, Beatriz, sua poesia merece. Bacana te ver por aqui. VAleu. bjs
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