Frango em pedaços
Escrito por Claudinei Vieira   
Dom, 11 de Outubro de 2009 17:04

 

Uma cena presenciada há muitos anos quando eu era adolescente, volta e meia me aparece para assombrar e me cobrar algum entendimento.

Era de noite, o ônibus não completamente lotado, poucas pessoas de , sobem algumas crianças e a mãe, moradoras de rua, roupas puídas e esfarrapadas. Sentam-se no fundo, ao meu lado, a mulher abre um pacote, fazendo com que o cheiro de frango assado se espalhe. Observo o rosto das crianças e vejo mais do que fome, a ansiedade de uma festa particular, alegria de participar de um momento especial. Naquele instante não estão em um ônibus, creio que nem percebem que existem pessoas ao redor.

 A mulher começa a separar os pedaços para distribuir e, de repente, um tranco muito forte, ela perde o equilíbrio, o pacote cai e frango se espalha todo pelo piso do ônibus. Diligentemente, ela recolhe cada um dos pedaços, dá uma cheirada, diz em voz alta (para as crianças e para o ônibus) 'Agora está sujo' e joga o pacote fora pela janela.

Sabe o que é? Já sentiu um silêncio mais pesado do que chumbo? Ninguém disse uma única palavra (embora tenha visto uma passageira fazer umas expressões de revolta, embora não tenha entendido direito sobre o quê ela se revoltava: desperdiçar comida, mesmo que suja?, jogar comida pela janela?, a incompetência da mãe em segurar o frango?), nem as crianças, cujos rostos ainda hoje afiguram-me como esfinges, uma delas ainda com a ansiedade estampada esforçando-se em aceitar e compreender o que acontecera, outra com uma resignação fria, e outra.

Também fiquei revoltado, e igualmente não sei pelo quê ou contra quem. Nem hoje. E, como disse, de vez em quando pedaços de frango me voltam à mente, me exigindo um posicionamento.

 

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Comentários (2)
  • akio  - Frango
    É realmente uma situação difícil. Se a família é pobre e as crianças necessitam matar a fome, a mãe poderia sim, limpar a parte do frango, tirar a pele e oferecer aos filhos. As pessoas ao redor entenderiam esse ato. Outra alternativa, é guardar o frango no embrulho e quando chegassem em casa, lavar.
    Difícil é entender a revolta de alguns, mas talvez seja contra o motorista, pois muitos deveriam aprender a brecar suavemente. Imaginou uma mulher com bebê nos braços?
    Abraço
    Akio
  • claudinei vieira  - complicado
    putz, complicado mesmo, Akio. a revolta era contra a mulher por ter jogado a comida fora. mas tenho certeza que se ela tivesse feito isso que você falou, dela dar uma limpada (e como realmente limpar da sujeira do piso de um ônibus?...), muita gente também ficaria enojada e ficaria contrariada. Por outro lado, tem também a nossa atitude, não é? Ninguém fez ou falou nada, nem discutiu com a mulher, nem reprovou, ou quem sabe, propôs alguma atitude, sei lá, fazer uma vaquinha para repor a comida perdida. Ela jogou o frango e, de certa forma, também fomos responsáveis por isso. Não sei, não tenho resposta, só estou colocando pensamentos para fora.
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