KICK-ASS. O filme é péssimo (mas com alguns detalhes interessantes). A HQ é excelente (embora com problemas pelo meio do caminho)
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 18 de Junho de 2010 03:48

 

Desta vez, eu consegui me conter e segurar a leitura da obra original antes de assistir sua adaptação cinematográfica. Na verdade, já havia lido algumas páginas, mesmo porque não tinha a menor intenção de assistir ao filme, quando dois lances me fizeram pensar. Primeiro, de repente do meio da história surge uma menina (menininha, de dez, onze anos) que salta, corre, pula e mata bandidões de gangue. Não só mata, como espanca, baleia, esfaqueia, retalha e depois, calmamente, limpa a espada do sangue, guarda a pistola no coldre e vai se embora pela janela. O segundo lance foi ter assistido, espantado, o trailer do filme e ver essa mesma cena reconstituida com pormenores, inclusive com o sangue espirrando, as espadas revoluteando, a menina (menininha), a responsável. Não acreditei que aquilo pudesse ser possível, que 'alguém' tivesse permitido que esse filme fosse produzido!
 
E pensei lá com meus botões e teclas de computador: se eu continuar lendo, por melhor que seja o filme, e por mais fiel que consiga reproduzir o teor da novela gráfica, com certeza sempre terei uma pontada de decepção, pois 'sempre poderia ser melhor' ou 'ainda mais fiel', nunca será o que se poderia alcançar dentro da minha cabeça. Deixei de lado a revista, esperei pelo filme, para assisti-lo mais 'puro', com menos influência da obra, pois quero nesse texto acompanhar, na medida do possível, em primeiro lugar as pessoas que só foram ou irão ao cinema (já que ninguém é obrigado a gostar de ler revista em quadrinhos) e não leram ou nem lerão o gibi. Sobre a revista, farei um comentário no final.
 
O filme, então.
 
Para nos localizarmos com as pessoas que ainda não sabem do que se trata a história, um brevíssimo resumo. Dave Lizewski é um garoto médio. Adolescente médio, estudante médio, de classe média. Não é rico nem miserável, não é um cdf nem faz parte da turma do fundão, não é bagunceiro nem carola, e assim são também seus amigos mais chegados. Está apaixonado, obviamente, pela menina mais bonita da escola, que mais obviamente ainda, nem sabe que ele existe. Dave só sabe fazer bem duas coisas: se masturbar com sites pornográficos e ler revistas em quadrinhos de superheróis. É quando pensa que ele poderia ser um superherói. Porque ninguém pensou nisso antes? É só vestir um uniforme com máscara e sair por aí zoando bandidos. 'Superheróis têm superpoderes, idiota', dizem seus amigos. 'o Batman não tem superpoderes', rebate. E afinal resolve seguir sua idéia.
 
Pela internet, compra uma roupa superdiferente, faz uns malabarismos em frente ao espelho e, após uns poucos e porcos exercícios físicos, se sente preparado. Não tem habilidade alguma, nenhum tipo de treinamento, mas acha que pode enfrentar uns ladrões do bairro. Dave, aliás, não está nem um pouco preocupado com injustiças sociais ou em ajudar os fracos e oprimidos, o que ele quer é usar o uniforme e ver as pessoas apontando o dedo, admirados, dizendo 'olha lá um superherói'. Bueno, em sua primeira 'missão', o que consegue é ser espancado, esfaqueado, abandonado à míngua e, para terminar, é atropelado. 
 
Não morre, passa vários meses no hospital se recuperando, tem um monte de ossos substituídos por pinos de metal, o que diminui consideravelmente sua sensibilidade à dor (o que não deixa de ser, portanto, uma espécie de 'superpoder'!). Sai do hospital, veste de novo o uniforme (o garoto é obcecado) e ajuda um rapaz que está apanhando de uma turma. Leva de novo uma surra, mas como não está sentindo dor, consegue ficar de pé. Essa luta é gravada por celulares por uma multidão que observava, curiosa, vai parar em blogs e sites, no Youtube e, de repente, KICK-ASS se torna uma sensação mundial. Era tudo o que Dave queria.
 
No entanto, há vilões de verdade na área, como o chefe da máfia local, e há superheróis de verdade, que realizam seu trabalho na surdina e não fazem questão nenhuma de serem reconhecidos e famosos. A história segue, portanto, na linha de que todas essas vertentes vão se cruzar e fazer parte de uma grande confusão final.
 
ok. Até aí, acompanha bem o enredo da revista até a parte onde eu havia lido, acrescentando ainda a apresentação da menina que está sendo treinada pelo seu próprio pai para ser uma superheroina, ela a Hit Girl, ele o Big Daddy. 
 
Bueno, o filme consegue criar uma certa expectativa para o que vai acontecer. Os diálogos são ótimos, certeiros e divertidos, recheados de piadas que funcionam; a ambientação e a cenografia é calcada para criar uma sensação de naturalismo e realismo, e até um certo ponto, consegue isso. Os personagens são caricatos e rasos, não podemos nos identificar em nenhum momento com o personagem principal que é bobalhão demais, não conseguimos nem sentir pena dele, e ainda por cima, é pessimamente interpretado por Aaron Johnson, inexpressivo e sem graça. 
 
Tudo melhora e a voltagem satírica do filme atinge picos tremendos quando aparece a dupla mais nonsense da face da terra. Chloe Moretz dá um show de carisma e versatilidade como Mindy, a Hit Girl, e o que ela faz em cena é de tirar o fôlego. Seu pai, o Big Daddy é feito pelo Nicolas Cage que nunca antes, eu simplesmente não lembro, esteve tão engraçado e simpático, enquanto 'educa' sua filha para suportar um tiro no colete à prova de balas ou usar canivetes incrementados ou experimentar pistolas de cano longo, e por aí vai. O filme vale por cada segundo em que um ou outro está presente. Por eles, o ingresso do cinema já está justificado.
 
E o filme não funciona. Momentos engraçados por aqui; cenas de violência de mentirinha por ali; uma história chapada, entupida de clichês; roteiro que se anuncia como inovador ou até crítico no começo, mas que conforme avança se rende aos artificialismos mais rasteiros. E o final, ah, o final. Tão previsível e repetitivo, tão incolor... Claro, não vou dizer aqui, mas pelo meio do filme já se sabe como tudo vai terminar, que um personagem importante vai morrer e que isso vai servir para um crescimento mental e amadurecimento do herói, que o eixo do universo vai ser realinhado, que os bandidos são bandidos, e a coragem e a valentia serão recompensadas. 
 
Acabei de assistir e fiquei matutando 'Como era possível?' e confesso que demorei a responder a mim mesmo. A história era a mesma (com as devidas e necessárias adaptações para servir como um produto cinematográfico, muitas das quais realmente indispensáveis); os personagens estavam plenamente caracterizados, a violência explícita presente...
 
Falemos dessa tal violência explícita, 'excessiva' como li em vários textos de críticos horrorizados com a brutalidade e o jorro de sangue e a falta de 'moralidade' (é verdade, alguém falou essa exata palavra). Eu li isso e tive que repensar o que acabei de assistir e me certificar de que estávamos a falar do mesmo filme. Se num primeiro momento as cenas de morte e tiroteio e luta até podem impressionar, basta relaxar um segundo e lembrar que há coisas muito piores (ou melhores, conforme o ponto de vista): somos contemporâneos do cinema de Quentin Tarantino, pombas! O melhor filme do ano passado foi 'Bastardos Inglórios' onde os 'mocinhos' escalpelavam e marcavam a testa dos nazistas. A violência e a morte e o sangue em Kick-Ass tem o mesmo peso e relevância do 'Kill Bill'. Encenadas e coreografadas no estilo de 'Matrix'. Com pausas e pedaços em câmera lenta, igualzinho do '300', assim como teve em 'Watchmen' (e em vários outros).    
 
Em suma, o problema de Kick-Ass não é o da violência em si, ou do sangue derramado, já que existe sim em quantidade, mas é sangue-de-massa-de-tomate e com a mesma dramaticidade. O que deve incomodar é justamente o ponto mais alto de todo o filme: o fato de que essa tal violência é executada, em sua grande maioria, por uma menina de 11 anos. Esse é o único ponto relevante, sua única 'originalidade'. Chloe Moretz atira, soca, e fatia, com galhardia, destreza, carisma e um charme absolutos. Fora isso, o resto é inodoro, insosso, sem consequência ou importância, não deixa marcas (em determinada cena, Hit Girl também leva uma surra e quase morre; quando a cena acaba, ela tira a máscara, mostra o rosto e não existe um único hematoma!). Tire-se esse 'detalhe' da idade, maneire-se um pouquinho a linguagem, alivie-se uma ou outra cena um pouco mais forte, e Kick-Ass vira um mero filme de aventura meio cômico e até chatinho. E acabaria-se também qualquer necessidade de se assistir a ele. 'Robocop', de  Paul Verhoeven é um filme de 1987, passa na Sessão na Tarde, e continua infinitamente mais violento, forte, impactante e tão importante para a história do cinema agora como foi no lançamento. Kick-Ass, puff...
 
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Ao nos voltarmos para a novela gráfica escrita por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr, devemos fazer um giro mental de 180° e percebermos que aqui, sim, a violência tem um sentido e uma força. Sentido objetivo, claro, narrativo, gráfico. 
 
Há dois níveis que precisam ser considerados: o do cotidiano besta, simplório, chato e plano. Da realidade da qual Dave anseia se libertar e a qual podemos inclusive identificar como igual a nossa e fazermos uma conexão com o personagem. Podemos assim até entender sua atitude e saber que ele vai se ferrar, pois somos assim e se estivessemos em seu lugar, nos ferraríamos da mesmíssima forma. É que, em geral, possuímos um certo senso de simancol do que o personagem parece não sobrar nada e não vestiremos uma fantasia qualquer para caçar bandido no meio da noite, pois sabemos muito bem o que vai nos acontecer. Quando se formaliza esse grau de aproximação entre o leitor e o personagem, quando sabemos da idêntica impossibilidade de mudar uma realidade pesada e dura, é aí que se torna tão chocante e inacreditável o aparecimento de Hit Girl e Big Daddy. Quando se estabelece que, afinal humanos somos e não existem superheróis, eis que eles aparecem! Esta sensação insofismável da presença bruta da dupla é tão forte que uma das minhas cenas preferidas é quando eles aparecem subitamente no quarto de Dave, logo depois da chacina dos traficantes de droga da região. Ele, sentado na beira da cama, desconsolado, ciente de que é, afinal, um merda e que nunca, nunca!, havia cogitado em matar alguém e já pensando em aposentar o seu bobo Kick-Ass e contente de que nunca mais veria aquela menina mortal e o grandalhão que a acompanhava... A cara dele ao ver Hit Girl e Big Daddy no seu próprio quarto é demais!
 
A violência é brusca, visual, gráfica, potente. O trabalho de Romita é insuperável, sentimos o sangue espirrar no nosso rosto, ele tem peso, sentimos sua presença. Ao executar uma vítima, o bandido encosta o revólver na nuca e dispara, e o momento da explosão preenche metade da página. Mas a morte (e sua visualização extrema) não é gratuita, tem a ver com a importância da personagem que está morrendo e sua relação com Kick-Ass e com o leitor. Ao ser capturado e torturado pelo chefão da máfia, no filme, Kick-Ass é espancado. Na HQ, é eletrocutado, com o fio preso no saco.
 
Claro, para poder produzir até mesmo esse produto pausteurizado, o diretor do filme Matthew Vaughn teve que pastar muito, não conseguiu apoio de nenhuma grande produtora (com medo de tocarem nessa história 'complicada') e foi obrigado a por dinheiro do próprio bolso. No entanto, não estou sugerindo que ele pudesse transcrever diretamente o quadrinho da novela gráfica (embora, na minha opinião, ele devesse pelo menos tentar). A questão não é somente visual, é de conceito. Vaughn pretendeu, e foi o que realizou, um produto pop, levemente mais violento do que a média dos filmes, que fizesse sucesso na garotada norte-americana. Millar e Romita provaram, ao contrário, que era possível fazer uma história de teor cínico e niilista, bem montada e narrada, e sem concessões.
 
A novela gráfica, no entanto, não está privada de defeitos. A premissa é bacana e muito interessante, a construção dos personagens é irretocável (como o filme nem chegou perto de fazer) e as cenas são tremendamente bem feitas. O problema é o roteiro. Pela metade da história, a impressão que passa é que Millar estava meio perdido com o encaminhamento da ótima premissa apresentada e não sabia saber exatamente o que fazer com ela. Correu uma história na época quando os volumes da HQ estavam sendo lançados de que Millar, em verdade, estava demorando muito para entregar o texto e que teria havido um considerável atraso por conta disso. Inclusive, o final parece-me que foi o mais demorado a ser publicado. Bloqueio criativo? Não sei. Perdi a referência de onde li isso, portanto, não sei se é verdade ou se estou somente repassando uma fofoca, mas para ser sincero não me admiraria.
 
Um detalhe concreto é o fato de que, quando o filme começou a ser rodado, o último volume da série ainda não havia sido publicado. O que faz com que os respectivos finais e conclusões sejam responsabilidade direta de cada um e completamente independente um do outro. E o final da HQ, ah, o final...
 
Se ele, o final, realmente demorou a ser publicado, se o meio da série é meio complicado, não importa. A conclusão de Millar é primorosa, e profundamente coerente com a premissa e a idéia original da história como um todo. Um belo final para um belo trabalho.
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

Comentários (3)
  • anderson  - ao contrario
    cara me desculpe, depois de assistir alguns filmes, gosto de procurar coisas na net e achei este site. tenho de vir a discordar de vc, o filme é ótimo, e na verdade, esta foi a única crítica negativa que eu encontrei... muito estranho!
  • Claudinei Vieira  - kick
    Anderson, essa é a maravilha das opiniões diferentes, cada um pode ter a sua, sem problemas, e por isso nem precisa se desculpar. no meu texto sobre o Kick-Ass deixei claro que achei várias coisas positivas, principalmente, vários bons diálogos e piadinhas(nem todos e nem todas, mas boa parte), as cenas de luta muito bem coreografadas, uma violência gráfica até que bonita, a Hit Girl e o Big Daddy, já disse que valem o ingresso.
    Só que na minha opinião essas partes boas não configuraram um todo bom. A narrativa é fraca, tem momentos mortos e sem graça, em outros é até constrangedor e é um pouco cansativo. E, fala sério, tirando uns certos cinco minutos, dá para pssar na sessão da tarde, sem problemas.
    Mas, você curtiu, se divertiu com o filme e isso, afinal de contas, é realmente o mais importante. Eu não consegui
    Grande abraço
  • Diogo  - valeu, pensei que era só eu
    Achei que só eu n tinha achado essa coisa toda do filme, pow o procurado li muito antes do filme tb e a HQ acho muito foda na ideia e tal, e por isso já nem esperava grande coisa deste filme, deu pra mim divertir como comediazinha roamtica teen e coisa e talz, e acho que foi feito pra isso a mudança no roteiro praquele romancizinho, mas putz o soco na cara que a Hq a todo instante dá no leitor é muito foda, o proprio Dave sabe da sua condição e se lamenta, quando termina alguma das "missões" o cara fica como se tivesse numa ressaca fudida jurando que nunca vai fazer aquilo de novo, e o roteiro é totalmente previsível o do filme, e acho já até sei como vai ser o segundo hauahua.
    O Mark Millar, fez o mesmo com wanted, eledava um soco na caras dos nerds com essa viagem de super heroi e o final da Hq é fenomenal, mas o filme virou um matrix-kataê-kid-sei-lá-o-q-bobo-nada-a-ver sei, acho que se fizesse algum filme baseado numa Hq do garth ennis vão passar uma ideia religiosa/cristã como este Livro de Eli, que dizem é baseado em Apenas um Peregrino heheeh
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