Cat People
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 13 de Agosto de 2009 05:02
 
Sublimação, Desejo, Poder e Medo do Homem diante da Mulher em dois filmes de terror e erotismo:  Cat People
 
Em 1942, Irena, uma jovem e bela sérvia, trabalha em Nova York como modista e se apaixona e se casa com um norte-americano. Não é um relacionamento tranqüilo, pois ela teme carregar uma maldição em sua família: ela pensa que descende de uma raça de mulheres-panteras que se transformam quando estão em algum apogeu de grande emoção e / ou quando fazem sexo.
 
Ela sente que a coisa vai acontecer, pois percebe que está com ciúmes violentos de uma amiga do seu marido e teme que ela sofra algum ataque seu quando estiver transformada. Preocupado, o marido cuida para que ela vá se tratar com um psiquiatra.

Roteiro enxutíssimo, quase nenhum efeito especial, trabalhando mais com jogos de câmeras simples, mas muito eficazes, e uma iluminação de claro/escuro belíssima e instigante, e fotografia fantástica CAT PEOPLE ficou conhecido no Brasil como “Sangue de Pantera” e é um clássico de terror psicológico e erotismo velados. Isto é, nada nunca é mostrado, nada nunca é explicitado, não há monstros, nem cenas de violência. O medo é sugerido, entrevisto, escutado. A fera (se por acaso existir e se a maldição for real e não somente loucura de Irena) nunca é mostrada. O sexo, o desejo, também. Mas estão lá, à espreita, prestes a atacar.
 
 

Filme bárbaro que funciona até hoje!
 
Quarenta anos depois, fizeram CAT PEOPLE (“A Marca da Pantera”, aqui). O básico da história foi mantido: Irena é uma jovem bela e estranha que passou sua infância complicada em orfanatos e instituições especiais até conhecer seu irmão, quando fica sabendo que eles pertencem a uma raça especial que precisa manter relações sexuais entre si porque, quando transam, se transformam em panteras selvagens e assassinas. Precisam matar para retornar ao estado de humanos. A coisa se complica pois, além de Irena não concordar em se entregar a esta relação incestuosa, ela ainda se apaixona por outro cara e não sabe como lidar com esta maldição. Já pensou como seria sua noite de núpcias? O outro camarada ainda por cima é diretor do zoológico local e está ajudando a caçar uma pantera que está aterrorizando a cidade...

Não é um grande filme, é simples, mas dá para assistir numa boa, sem grandes pretensões. Mas também é
 um clássico. Por conta da pantera principal: Nastassja Kinski. Puta que o pariu de pantera!!

Os elementos estão apontados. Em 1942, a mulher ativa e liberada (que, no entanto, existia ou lutava para se impor) não podia ser aceita. Não à toa, a pantera tinha que ser de fora, não podia ser uma nativa, uma norte-americana ‘da gema’, tinha que ser uma estrangeira, alguém misterioso de algum lugar remotamente conhecido e exótico o suficiente para provar ao espectador o quanto Lá é estranho e o quanto Eles (ou, principalmente, Elas) podem ser perigosos. Mortíferos até. A moral e a família precisam ser mantido, a tranqüilidade precisa ser reposta. O final de “Sangue de Pantera” toma isso a cargo. Como não poderia deixar de ser em um filme realizado no começo da década de 40.

Em 1982, mesmo com a diluição destas premissas e mesmo que a mulher contemporânea tenha tomado posições bem mais avançadas do que seria imaginável em tempos idos, e mesmo que o diretor esteja mais preocupado em mostrar o corpo de Nastassja (ela fica pelada boa parte do tempo), do que em fazer discussões ou até mesmo de mostrar eficiência em criar suspense, Mesmo assim, é extremamente interessante observar como os dois filmes e as duas Irenas se parecem e mantém laços. O sexo já não é mais visto como O Perigo (a era mais pesada da Aids ainda estava só começando), fazendo com que os produtores tentem forçar um pouco a barra ao tentar encontrar algum problema e demonstrar que a questão, na verdade, era o Incesto. Fazer sexo tudo bem; fazer sexo com a Nastassja melhor ainda. Mas com o irmão não, nunca! O foco mudou,  o vilão agora não é mais a mulher e sim seu irmão que insiste em se arrogar o direito a sua .... depravação, digamos assim. 

Apesar disso, Irena/Nastassja ainda é um ser estranho, perigoso, além das fronteiras (não estou lembrando agora se a personagem é norte-americana ou não) que pode não ser a vilã, nem o mal personificado, nem é louca mental. No entanto, ela ainda assim carrega a sua maldição. Esse furor sexual ainda assusta, não é ‘normal’, precisa ser controlado.

E o modo como o cara do zoológico encontra para ‘controlar’ Nastassja é de matar de inveja a todos os homens e todas as lésbicas do mundo. Ai, ai.
 
 

Comentários (3)
  • Claudinei Vieira
    - Tati, ainda estamos ajustando o esquema dos comentários, mas acho que agora dá para comentar em cada texto.
    Eu nem imaginava que você não conhecesse CAT PEOPLE! Tá fácil de pegar ali na 2001. QQ coisa tenho cópia aqui se quiser. Só não pode deixar de ver, claro!
    - Fernanda, quem conhece o Hijak sabe o quanto ele é louco, não é somente o nome. Mas até que desenha bem, não? - rs. VAleu.
  • simone  - cat people
    Adorei esse post! Essa versão mais recente é um dos meus filmes preferidos, justamente por mostrar esse lado animal da sexualidade humana. Sem contar que a expressão corporal dos atores é demais!!Muito bacana seu blog
  • Claudinei Vieira  - VAleu, Simone
    Eu amo esses filmes.
    Do primeiro, gosto do terror velado, com a sexualidade fortemente presente, mas escondida abaixo de uma superfície extremamente fina, e o jogo de luzes e sombras é muito bonito e eficiente, funciona mesmo até hoje. Do segundo, há essa
    sexualidade escancarada e puramente animal, como você disse.
    Você me fez lembrar do Malcolm McDowell, que faz o irmão da Nastassja, e é verdade: suas caracterizações estão perfeitas. bjs
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