O basterd Tarantino não fez um filme sobre a 2ª Guerra Mundial
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 02 de Outubro de 2009 12:41

inglorious basterds

O que se espera de um filme novo de Quentin Tarantino? Basicamente o seguinte: longos diálogos esplendidamente construídos, que nunca cansam,  de aparência banal e casual, sempre no limite das improvisações dos atores, mas controlados com mão firme pelo diretor; violência gráfica abundante, com bastante sangue sintético jorrando, beirando o kitsch e o grotesco, e cujo exagero e aparente gratuidade evidenciam forte carater burlesco e gozação auto-irônica. Roteiros e temas urbanos e contemporâneos, com ritmo acelerado e batida de suspense. Esse 'ritmo' pode variar um pouco de filme para filme (em 'Jackie Brown', ele desacelera bruscamente, pé no freio, em contraste com o que faria depois com 'Kill Bill'), em geral existe uma batida 'estilo' Tarantino, fácil de se reconhecer.
 
Quando se soube que ele faria um filme que se passa na Segunda Guerra Mundial, houve duas reações imediatas: a surpresa (e uma boa medida de descrença também; para os descrentes era estranha a possibilidade de um Tarantino de 'época'); logo vieram o entusiasmo e a ansiedade da espera, pois (para os crentes) os elementos tarantinescos estavam todos presentes em um filme de guerra. 
 
Sabe-se que quando o filme foi apresentado pela primeira vez em Cannes a reação foi meio decepcionante. Se bem me lembro, reclamaram no principal do ritmo, muito mais lento do que se esperava (por ser Tarantino e por ser um filme de guerra), e se ressentiram da pouca presença em cena de Brad Pitt, um astro hollywoodiano em pleno fulgor que deveria, portanto, conduzir a narrativa, mas que aparecia muito pouco. De tal modo, que correu o boato de que a produtora norte-americana teria ficado nervosa e exigido que Tarantino realizasse modificações para responder às criticas (coisa que ele negou veementemente ter feito, o que parece ser verdade). Vi algumas observações (francesas, em geral), que criticavam também o tom jocoso com que ele se referia aos combatentes dessa guerra. Ao lado das 'novidades', esse tal tom irônico é simples de refutar: bastar se dar conta de que 'Inglorious Basterds', afinal de contas, não é um filme sobre a 2ª Guerra Mundial.
 
inglourius basterds
 
Há uma certa razão no desagrado. "Inglorious Basterds" não consegue acomodar no seu todo as várias partes brilhantes. Os elementos tarantinescos se fazem presentes (os diálogos, a violência, etc) com toda força e maestria, mas não se harmonizam com o roteiro geral, perfazendo assim um produto final um tanto desconjuntado. O ritmo parece mesmo não se achar e a divisão por 'capítulos' não ajuda, aumentando o sentimento de desconforto. No entanto, quer saber? Isso não atrapalha nada!  Ao final da exibição, não nos damos conta do tempo que passou, tal modo somos tomados pela história. Se este é o mesmo filme exibido em Cannes, sem cortes ou modificações de qualquer monta, então o pessoal de lá estava maluco. "Inglorious Basterds" é, fácil, fácil, um dos melhores filmes da década!
 
É verdade, Brad Pitt não é o personagem principal, o que é uma pena, pois ele faz um Tenente Aldo Raines com uma desenvoltura e gosto tremendos, percebe-se o quanto ele está solto e se divertindo com sua atuação, beirando o caricato, personificando o líder de uma turma de guerrilheiros norte-americanos, os 'basterds', que se dedicam a caçar e escalpelar soldados alemães. Há a história de Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), uma judia que escapou de um massacre nazista logo no começo do filme e que volta, sedenta de vingança, como gerente de um cinema, onde vai se realizar a exibição de um filme produzido pelo III Reich e estarão presentes boa parte da cúpula nazista, inclusive o próprio Füher, prato cheio para Shosanna e para os basterds. E há, sobretudo, meus amigos, minhas queridas amigas, o coronel Landa, o 'caçador de judeus' personificado assombrosamente por Christoph Waltz. Não foi à toa que conquistou o prêmio de ator em Cannes:
 
Waltz arrasa. Landa é de pronto um dos maiores ícones do nazista de cinema: culto, inteligente, sofisticado, sádico, desumano, aterrorizante, educado, simpático, o máximo da eficiência em caçar e matar judeus, torturar pessoas, e falar francês e italiano. Um dos melhores indicadores da mão firme de Tarantino é quando, em cenas simples e rápidas, como quando Raine e Landa se conhecem ou quando o tenente é interrogado. De um lado, a frieza e eficiência do nazista; do outro, a selvageria boca-suja arrogante e prepotente do norte-americano (que, num filme 'comum', seria o 'mocinho'). O que poderia resvalar para uma comédia pastelão ou uma aventura bélica inconsequente, repetido tantas vezes na história do cinema, se transforma em episódios de imensa carga emocional.
 
Consideremos agora os tais 'basterds' e permitam-me colocar uma questão: qual o objetivo de Tarantino realizar uma história que se passa na 2ª Guerra? Em outras palavras, os 'basterds' poderiam atuar em 
tarantino
alguma outra guerra, inclusive mais atuais? Se formos pensar em termos históricos, sem dúvida. Fazendo-se as devidas adaptações, poderia encaixá-los em qualquer parte do mundo e em qualquer momento. Tarantino não está nem um pouco interessado nisso.
 
Ele não está dialogando com a História. Ele está pouco se lixando para combates reais. Já se foi dito por aí que "Inglorious Basterds" é, na verdade, um western, um faroeste na velha linhagem dos western spaghettis italianos dos anos 60 e 70. Sim, concordo que existe essa inspiração.
 
Só não é a principal. Temos que completar e dizer que é um filme de guerra. Da 2ª Guerra, bem especificamente. Tarantino retoma, mistura, recicla, revitaliza, todos os filmes de 2ª Guerra realizados até hoje! Por isso, os basterds não poderiam atuar em uma Bósnia, por exemplo: porque não há uma tradição de filmes hollywoodianos (ou italianos) de guerra bósnios. Essa é a preocupação e o desejo de Tarantino: revisitar e modificar o cinema e não a História.
 
Pretensão que realiza com todo vigor! 
 
 
 
 
 
 
 
 
Comentários (2)
  • iovete  - tarantino
    otimo filme fazia já algum tempo que não assistia um filme maravilhoso como este adorei parabéns
  • claudinei vieira  - filme
    Iovete, Acompanho seu entusiasmo e concordo plenamente. Filme que dá gosto e vontade realmente de ir ao cinema.
    VAleu
    bjs
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