Oscar de simpatia. Não mais. Nem menos.
Escrito por Claudinei Vieira   
Dom, 07 de Março de 2010 01:58
 
É possível que daqui a alguns anos, 2010 possa ser reconhecido como um marco na história da cinematografia hollywodiana, um verdadeiro divisor de águas. Quem sabe, os rumos do cinema mundial possam estar sendo definidos agora, e sentiremos verdadeiramente seus efeitos mais pra frente. O 3D pode ser a salvação de um determinado pensamento de se fazer filmes (e seus respectivos executivos) ou pode ser somente uma bolha de exibição que logo será estourada e novamente ultrapassada pelos tantos caminhos 'alternativos' oferecidos pela expansão tecnológica e pelo 'trabalho' de hackers e piratas e usuários comuns e velhos expectadores e novíssima audiência. 
 
James Cameron poderia ter definido a história neste exato momento. Se em seu imenso afâ e dedicação de descobrir novas tecnologias visuais para se contar uma mesma história houvesse também se dedicado a construir uma narrativa melhor elaborada, seu trabalho teria sido inigualável. Não o fez. Não quis ou não pôde, ocupado que esteve com suas prerrogativas e empecilhos técnicos. O resultado foi um filme que todos reconhecem ser um desbunde sensacional, uma força visual esplendorosa, mas que provoca uma sensação difícil de ser definida, mas que tento por  'falta de alguma coisa'. Pode não ser uma definição muito objetiva. No entanto, tenho certeza absoluta que qualquer pessoa que saia do cinema depois de assistir 'Avatar' compartilha essa mesma sensação comigo, mesmo que não a tenha consciente.  'Falta alguma coisa'. Posso ser, sim, mais objetivo, e dizer que faltou uma melhor história, faltou a vontade de se ter uma melhor história, deslumbrado que estava Cameron com suas possibilidades técnico-visuais. Uma pena.
 
A situação que temos, portanto, com o Oscar 2010 é a da mediocridade geral. E, acreditem, não estou falando no mau sentido. Na verdade, estou sendo positivo. Em anos passados, houve ocasiões que foi terrível assistir à cerimônia porque a maioria dos filmes era simplesmente péssima. Desta vez, temos um leque de opções extremamente variada e, devo dizer, a maioria muito boa. Não espetacular, nada histórico. Boa. Simpática. 2010 é o reino dos filmes simpáticos.
 
Vamos dar uma passada rápida pelas indicações (bem rápida, a cerimônia está para começar) para explicar melhor essa tal 'simpatia'.
 
 

Filme

Amor Sem Escalas , Jason Reitman
Avatar , James Cameron
Bastardos Inglórios , Quentin Tarantino
Distrito 9 , Neill Bloomkamp
Educação , Lone Scherfig
Guerra ao Terror , Kathryn Bigelow
Um Homem Sério, Joel e Ethan Coen
Preciosa , Lee Daniels
Um Sonho Possível , John Lee Hancock
Up, Pete Docter e Bob Peterson
 
- Já se falou bastante do fato do Brasil ter simplesmente ignorado 'Guerra ao Terror' a ponto de nem exibi-lo no cinema e lançá-lo diretamente em dvd. Uma burrada homérica, sem dúvida, mas deve-se dizer que não foi exclusividade brasileira. Muita gente não apostava nele. Mesmo nos Estados Unidos até há pouco tempo, a maior aposta para se contrapor a 'Avatar' estava sendo 'Amor sem Escalas'. A progressão de 'Guerra ao Terror' (e a decadência de 'Amor sem escalas') foi progressiva e lenta, a conquista dos prêmios foi contínua e ascendente. Podia-se perceber perfeitamente o tom de surpresa nos artigos e comentários norte-americanos nessa sua ascensão. Neste exato momento, é o franco favorito e é muito engraçado observar como se faz essa reavaliação, e como (de repente) o fato de ter sido dirigido por uma mulher tomou importância. O 'detalhe' de Kathryn Bigelow ser a ex-mulher de Cameron ajudou a criar esse climinha de concorrência (coisa que 'Amor sem escala' não teria feito), para agitar uma cerimônia que, de outro modo, estava morna demais.
 
De qualquer forma, 'Guerra ao Terror'  é um bom filme. E só. Ouvi dizer que chegaram a chama-lo de o 'Apocalipse Now' moderno, o que é um exagero absurdo e desnecessário. A direção de Bigelow é segura e forte, a história é interessante e bem contada, de um ponto de vista diferente e inusitado, mas não oferece (nem pretende) maiores reflexões nem sobre a presença norte-americana no Iraque, nem sobre  o impacto sobre seus soldados, nem mesmo induz a uma profunda reavaliação do ser humano frente às guerras. Bons momentos de suspense, boa condução narrativa, bom desenvolvimento de personagens. Simpatia e eficiência. 
 
Saindo desses dois contendores principais, dessa lista o único filme realmente empolgante e desafiador, finamente realizado, com proposta diferenciada, o único com qualidade real para se ganhar um Oscar de Filme é 'Bastardos Inglórios'. Não vai ser dessa vez que Tarantino será reconhecido como o cineasta mais inventivo e impactante destes últimos tempos. Ainda é jovem, terá outras oportunidades, mas é pena que ainda seja visto como um enfant terrible, somente.
 
'Distrito 9' realizado com muito menos recursos, mas com muita habilidade e competência, bate fácil, fácil, como história, como narrativa, Avatar. Os efeitos especiais não são espetaculares? E daí? É muito mais emocionante, mais impactante, perdura muito mais tempo na cabeça do expectador. De 'Bastardos' e 'Distrito 9' falei com mais vagar e detalhes. 'Educação' me surpreendeu muito. Devo dizer que minha expectativa era bem baixa. No final das contas, revelou-se muito mais simpático e interessante do que eu pensava, o roteiro de Nick Hornby é bacana, mais contido do que em geral dos seus trabalhos, os diálogos afiados ao estilo britânico, a atriz Carey Mulligan é linda, muito solta e expressiva. Absurdo, no entanto, que tenha recebido esse destaque em detrimento do infinitamente melhor '500 Dias com Ela'. 
 
Por motivos completamente opostos, não consegui assistir até o final nem 'Um Sonho Possível' nem 'Preciosa'.  Um é a futilidade no mais alto grau, apesar da presença extremamente carismática de Sandra Bullock. Outro é um soco no estômago, o mundo cão de um modo que enjoa os sentidos. Assisti o suficiente para sentir a força da atuação de um elenco excepcional. Do que vi, no entanto, fiquei com a impressão de uma direção por demais exagerada, sufocante, com o fervor da intenção de chocar. Não tenho o direito de emitir minha opinião, tenho que assistir tudo, mas confesso que não consegui.
 
De 'Up - Altas Aventuras' também já falei: os quinze primeiros minutos são um curta clássico. Ele só não se sustenta como longa-metragem, se perde nos clichês e na falta de imaginação. 'Um Homem Sério' é um equívoco dos irmãos Cohen. Filme irritante, sem propósito, sem saída. Os Cohen continuam uma dupla infernal, possuem domínio da filmagem, cada novo filme é um prazer inusitado. Menos 'Um Homem Sério'!, por favor. 
 
- 'Guerra ao Terror' ou 'Avatar'? A balança tende para esses dois, na minha opinião com leve (levíssima) vantagem para 'Guerra'. Em verdade, chega a ser quase indiferente essa premiação. Esse Oscar não vai determinar, de forma alguma, o futuro do cinema hollywodiano. Filmes independentes e de pouco orçamento continuarão a serem realizados, enquanto as grandes produtoras estão correndo loucas para aproveitar a onda do 3D e só pararão se houver uma reação negativa ou amorfa do público.  
 
 

Direção

James Cameron, Avatar 
Jason Reitman, Amor Sem Escalas 
Kathryn Bigelow, Guerra ao Terror 
Lee Daniels, Preciosa 
Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios 
 
Tarantino deveria ganhar com o melhor trabalho de sua carreira. Kathryn Bigelow vai levar.
 
 

Ator

Colin Firth, Direito de Amar
George Clooney, Amor Sem Escalas 
Jeff Bridges, Coração Louco
Jeremy Renner, Guerra ao Terror 
Morgan Freeman, Invictus 
 
Mais uma barbada, em um filme irritantemente convencional, quadrado e sem graça. Jeff Bridges está soberbo, em um papel sem grandeza, em um filme fraco. 
 
Jeremy Renner está bem, mas uma indicação para 'Melhor Ator' é um exagero tremendo. George Clooney está cada vez mais George Clooney (e isso foi um elogio) e Morgan Freeman faz um Morgan-Freeman-que-imita-Mandela (comentei aqui). Não assisti 'Direito de Amar', e também não tive muito vontade de fazê-lo.
 
 

Atriz

Carey Mulligan, Educação 
Gabourey Sidibe, Preciosa 
Helen Mirren, The Last Station
Meryl Streep, Julie & Julia 
Sandra Bullock, Um Sonho Possível 
 
Sandra Bullock, por certo. Na verdade, torço por ela. O filme pode ser uma porcaria, mas a simpatia de Sandra é contagiante
 
 

Atriz coadjuvante

Anna Kendrick, Amor Sem Escalas 
Maggie Gyllenhaal, Coração Louco
Mo'Nique, Preciosa 
Penélope Cruz, Nine 
Vera Farmiga, Amor Sem Escalas 
 
Nenhuma dúvida. Mo´Nique. Será merecido, mesmo em um páreo duríssimo, como nesse ano. Vera Farmiga e Anna Kendrick estão sensacionais, uma pena não terem nenhuma chance; Gyllenhaal é uma atriz soberba, o filme não ajuda, porém. A indicação de Penélope Cruz, apesar de deslumbrante e carismática, foi um exagero.
 
 

Ator coadjuvante

Christoph Waltz, Bastardos Inglórios 
Christopher Plummer, The Last Station
Matt Damon, Invictus 
Stanley Tucci, Um Olhar do Paraíso 
Woody Harrelson, O Mensageiro 
 
Se não fosse a presença de Christoph Waltz, poderíamos até discutir. Se ele não ganhar, nunca mais assisto o Oscar na minha vida. Ouviu, Hollywood?! Não estou brincando!
 
 

Roteiro original

                                                                    Bob Peterson, Up 
Ethan Coen, Joel Coen, Um Homem Sério
Mark Boal, Guerra ao Terror 
Oren Moverman, O Mensageiro 
Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios 
 
Deve ser o único prêmio do 'Bastardos Inglórios'. E aqui se localiza uma outra grande injustiça: o roteiro primoroso de '500 dias com ela' não ter sido sequer indicado, sacanagem.
 
 

Roteiro adaptado

Armando Iannucci, Jesse Armstrong, Simon Blackwell, Tony Roche, In The Loop 
Geoffrey Fletcher, Preciosa 
Jason Reitman e Sheldon Turner, Amor Sem Escalas 
Neill Blomkamp e Terri Tatchell, Distrito 9 
Nick Hornby, Educação 
 
Talvez a única grande incógnita desse Oscar. 'Amor sem escalas' ganhou o Globo de Ouro'. 'Preciosa' conseguiu o prêmio dos Roteiristas, o Writers Guild of America. São todos os cinco ótimos roteiros. Não dou palpite. Precisaria ler os livros para apreciar a adaptação.
 
 

Filme em língua estrangeira

Ajami (Israel)
A Fita Branca  (Alemanha)
Um Profeta (França)
O Segredo dos Seus Olhos (Argentina)
A Teta Assustada  (Peru)
 
Ao que tudo indica, 'A Fita Branca' deve levar. Aqui repito o comentário que fiz acima em relação aos irmãos Cohen: a óbvia maestria do trabalho e o apuro das imagens de Michael Haneke dão a impressão de que o filme é melhor (e tem mais propósito e mais sentido) que realmente é. O fato de 'A fita branca' oferecer tantas possibilidades de interpretação é porque, na verdade, as pessoas projetam sua própria perspectiva sobre o filme e tiram suas próprias conclusões. Em alguns casos, em filmes clássicos, isso acontece pela riqueza e profundidade oferecidas pelo cineasta. Neste caso, 'A fita branca', só nos oferece o vazio e por isso podemos colar a ele qualquer sentido que queiramos. Qualquer coisa vale. Visualmente bonito, falsamente instigante, o filme de Haneke engana bem, mas é o seu pior da carreira.
 
'A Teta Assustada' é uma surpresa. Como um filme tão ruim pode marcar tanta presença e fazer furor até em Cannes?! 
 
 

Filme de animação

Coraline e o Mundo Secreto , Henry Selick
Fantástico Sr. Raposo , Wes Anderson
A Princesa e o Sapo , Ron Clements e John Musker
Up - Altas Aventuras , Pete Docter e Bob Peterson
The Secret of Kells, Tomm Moore
 
Os quinze minutos iniciais de Up bate todos os outros filmes.
 

Fotografia

Avatar, Mauro Fiore 
Bastardos Inglórios, Robert Richardson 
A Fita Branca , Christian Berger
Guerra ao Terror, Barry Ackroyd 
Harry Potter e o Enigma do Príncipe , Bruno Delbonnel
 
 
Categoria complicada. Gosto muito do trabalho em 'Harry Potter'; Em Bastados e em Guerra também é bem realizado, mas convencional, ao final das contas. O preto e branco em 'A Fita Branca' é primoroso, no entanto, fascinante, um dos melhores trabalhos que já vi em muitos anos, sem dúvida a melhor coisa do filme de Haneke. 'Avatar' vai levar, claro. 
 
 

Montagem

Avatar, Stephen Rivkin, John Refua e James Cameron
Distrito 9, Julian Clarke
Guerra ao Terror, Bob Murawski e Chris Innis
Bastardos Inglórios, Sally Menke
Preciosa, Joe Klotz
 
'Distrito 9' e 'Preciosa' são de longe as melhores montagens. 'Avatar' vai levar.
 
 

Direção de arte e cenários

 Avatar , Rick Carter e Robert Stromberg (direção de arte), Kim Sinclair (cenografia)

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus , Dave Warren e Anastasia Masaro (direção de arte); Caroline Smith, (cenografia)
Nine , John Myhre(direção de arte); Gordon Sim, (cenografia)
Sherlock Holmes , Sarah Greenwood(direção de arte); Katie Spencer, (cenografia)
The Young Victoria, Patrice Vermette(direção de arte); Maggie Gray, (cenografia)
 
'Avatar'
 
 

Figurinos

Brilho de uma Paixão, Janet Patterson 
Coco Antes de Chanel , Catherine Leterrier
O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus , Monique Prudhomme
Nine , Colleen Atwood
The Young Victoria, Sandy Powell
 
'Coco'. Nenhuma qualidade do filme em si. Só porque fala da modista.
 
 

Maquiagem

Il Divo , Aldo Signoretti and Vittorio Sodano
Star Trek , Barney Burman, Mindy Hall and Joel Harlow
The Young Victoria, Jon Henry Gordon and Jenny Shircore
 
Só vi 'Star Trek'. Maquiagem convencional. 
 
 

Trilha sonora

Avatar , James Horner
O Fantástico Sr. Raposo , Alexandre Desplat
Guerra ao Terror , Marco Beltrami and Buck Sanders
Sherlock Holmes , Hans Zimmer
Up , Michael Giacchino
 
O fato de não ter nenhum musical concorrendo dá nisso: indicações bizarras: 'Avatar'?? 'Guerra ao Terror'?? 'Sherlock Holmes'?? 'A Princesa e o Sapo' tem duas indicações para Melhor Música, mas não Melhor Trilha?? Fala sério. Nem quero palpitar.
 
 

Canção

"Almost There", de A Princesa e o Sapo 
Randy Newman (música e letra)
"Down in New Orleans", de A Princesa e o Sapo 
Randy Newman (música e letra)
"Loin de Paname", de Paris 36
Reinhardt Wagner (música), Frank Thomas (letra)
"Take It All", de Nine 
Maury Yeston (música e letra)
"The Weary Kind", de Coração Louco 
Ryan Bingham e T Bone Burnett (música e letra)
 
Passo.
 
 

Edição de som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais

'Avatar'. Sem discussão.
 

Documentário em longa-metragem e Documentário em curta-metragem

Passo
 

Curta-metragem de animação

O melhor desse ano em matéria de curta de animação é o fato de que estão todos disponíveis para assistir pelo mundo virtual, é só procurar. 
 
 
 
- ok. Vamos ver o que vai acontecer.
 
 
 

 

Comentários (4)
  • Tati
    Cá, o lobo sobra o 3D de avatar mais fácil do que fez com a casa de palha... Sem arte, não tem pilar que sustente a tecnologia. Já Direito de Amar é de uma baita consistência... Bom, eu amei do começo a cinco minutos antes do fim... Como a gente sempre discorda nos filmes de arte, como eu gostei demais, é capaz de vc detestar... Rs... Beijo! Vistes a Iara que bela? Tati
  • Claudinei Vieira  - avatar e direito
    Tati, é verdade, a consistência do Avatar é a do papel celofane: brilhante e colorido, mas superficial, frágil e raso. Eu só devo dizer que gostei do filme, me diverti muito. Ele só não é nada memorável e logo submergirá na onda de demais com mais fogos-de-artificios tecnológicos.
    E também é verdade: realmente, temos opiniões muuuuito diferente sobre certos filmes. 'Direito de Amar'...
  • Tati
    Meu, a gente nunca vai concordar num filme... Última tentativa: Ilha Nua, fiquei pasma, boquiaberta, sem fôlego, chorando, crise absoluta. Diz pelo amor de deus que vc gostou... Saudade de vc, Cá. Puta vida corrida, mas o abraço chega até aí. Beijo!
  • Claudinei Vieira  - concórdia
    Tati, temos filmes com opiniões concordantes. Neste exato momento, não tou conseguindo lembrar exatamente qual, mas tenho certeza que temos! Quanto ao Ilha Nua, ainda não dá para saber ose concordamos, não assisti. Embora, por tudo que já ouvi falar dele, parece mesmo provocar uma impressão marcante.
    nos falamos.
    grande beijo
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