UP - Aventura e decepção
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 03 de Setembro de 2009 23:45
 
Muito tem se falado sobre o começo maravilhoso de 'Up - Altas Aventuras'. Nisso não terei o que dizer, a não ser repetir.
 
Devem ser uns quinze minutos. Conta-se a vida de um casal desde a infância, com rigorosa montagem, cortes perfeitos, com apenas duas linhas de diálogo, praticamente um filme mudo, o começo das expectativas, as ânsias infantis por lugares remotos e perigosos, a admiração por um aventureiro famoso, a aspiração por seguir-lhe os passos e as viagens, o começo do namoro, ele tímido e reservado, ela atirada e empolgada, o casamento, os planos para as aventuras futuras, o dia-a-dia cotidiano e simples, a vida amorosa, a velhice, a morte da mulher, a solidão do velho. Delicado, denso, sério, poético, lindo. 
 
À medida que assistia a isso, eu ficava preocupado com o que viria depois. 'Eles não vão conseguir segurar esse tom', pensava com os meus botões e zíperes. O clima se mantém um pouquinho nas cenas de transição. Já não é mais o mesmo filme, mas não contradiz o que veio antes, nem no enredo nem no desenvolvimento. O velho agora sozinho resiste impávido à fúria de destruição e reconstrução em volta, sua casa é a única que se  mantém firme no meio de um cantão de obras de edifícios. Chegará o momento em que ele terá que entregar os pontos, desistir da casa, ir para um asilo. Ele decide sair, viajar e concretizar o sonho de sua mulher, encontrar a terra fantástica que haviam planejado alcançar juntos, sem deixar a casa, e todas as lembranças acumuladas, para trás. A solução é maravilhosa: o velho amarra milhares de balões ao teto da casa e sai voando! Com um passageiro inesperado e indesejado: um garoto hiperativo e hipertenso e hiperchato, um escoteiro que precisa praticar boas ações para conseguir uma medalha, e que ficara na varanda durante à noite. É nesse ponto que o filme realmente começa e onde o 'Altas Aventuras' do título brasileiro se justifica. Na verdade, é quando o filme, como foco de interesse, termina.
 
O que vem a seguir é uma avalanche de clichês mal alinhavados e pior desenvolvidos. A birra do velho ranzinza e do garoto feliz e ingênuo, que brigarão até se tornarem amigos leais e aprenderão a respeitar suas respectivas diferenças; a chegada ao lugar almejado que nunca será o que se imaginara e a frustração quando, no fundo, a felicidade era a própria casa antiga; o surgimento de um vilão absurdo, sem graça e sem sentido que passou décadas de sua vida procurando por um animal exótico e raro que obviamente será protegido e resgatado pelo velho e a criança; pela amizade e pelos valores humanos se sacrificará os objetos meramente materiais, inclusive a própria casa.
 
Se alguma coisa que disse no parágrafo anterior te surpreendeu ou considerou como spoiler, devo dizer então que você nunca assistiu um desenho animado na sua vida. Além de milhões de outros filmes infanto-juvenis que preferem pegar seu público pela história rasteira e as soluções simplórias e fáceis. 
 
Há alguns pontos interessantes, mesmo que não consigam reverter a linha geral: para os mais velhos, é divertido ver representados em animação antigos atores hollywoodianos, Spencer Tracy e Kirk Douglas, muito embora essa homenagem venha sem explicação e sem nenhuma maior consequência na psicologia dos personagens. Os cachorros falantes até que são interessantes (e nesse caso a 'psicologia' aqui funciona, seu comportamento é muito coerente com o que se espera de cachorros, mesmo que falantes). A luta de bengalas. E só.

O resto é um amontoado situações recicladas, sem imaginação, nem inspiração.
 
A questão não é que a Pixar não tenha conseguido criar um filme bacana. A impressão é que nem sequer tentaram. Não quiseram sair do fácil, do já conhecido, do mastigado. Pensando no tanto de tempo que se leva para se aprontar um filme assim, desde as primeiras discussões, o levantamento de idéias, a computação gráfica e tudo, a criação do roteiro, a escrita, a filmagem, até as decisões finais, e o marketing... que resultado ridículo! 
 

 
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