Desconcertos
A Colheita de Imagens de “Lavoura Arcaica” - Quando a Palavra se faz Cinema
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 23 de Agosto de 2010 03:41

 

 
 
 
Som e Palavra
 
Cinema é, por definição, Imagem. Imagem que se mexe. A palavra CINE vem do grego e significa Movimento e foi tomada pelos Lumière para formar a base da palavra do seu invento: Cinématographe, a foto que se mexia, a imagem parada, estática que se transmudava em ser vivo que andava, se movimentava (como na vida “real”). Já comentei em outro artigo o quanto é preciso relativizar a importância do Som para o Cinema. Este continuaria existindo como tal se, por algum acaso, não houvesse esta circunstância sonora, este comentário ao que está se passando no campo visual. Não são necessárias palavras para entender o que se passa em um filme de Carlitos.
 
De uma forma ou de outra, o Som ou a Palavra nunca estiveram ausentes de uma projeção: fosse como acompanhamento musical de algum instrumentista que tocasse melodias seguindo as cenas passo a passo, fosse pelo apresentador da função que falava o tempo inteiro instigando, fazendo suspense ou até mesmo esmiuçando o que os espectadores estavam assistindo. Eram chamarizes para atrair a atenção, para tornar a sessão ainda mais atraente. Em outras palavras, simples acessórios para que as pessoas assistissem com mais sofreguidão e vontade.
 
(Não estou, de forma alguma, querendo ser saudosista de um pretenso e antigo cinema perfeito, ou de Arte, onde a falta de som significaria automaticamente qualidade artística profunda. No cinema moderno, percebemos, e somos educados a participar do fato, do quanto a conjuntura sonora, seja como simples sons de ruídos ou música ou pensamentos expressos por diálogos ou narração, são intrínsecos para uma melhor condução do discurso narrativo. Mas, quero separar as suas devidas prioridades, tanto “artísticas” quanto cronológicas.)
 
O que BLADE RUNNER tem a ver com isso
 
Como podem perceber estou fazendo uma distinção bem clara entre Som e Palavra; no Cinema Mudo, existia a Palavra, mesmo que afônica, quando se costumava colocar aqueles letreiros com trechos de “diálogos” dos atores ou comentários do autor. Com o advento do Cinema Falado, Som e Palavra dão a impressão de terem se casado, mas continuaram sendo completamente diferentes. Atualmente, existe uma pré-disposição para fazer distinções ainda mais específicas: compreendemos muito bem, por exemplo, porque a Academia de Hollywood concede prêmios separados para Melhor Trilha Sonora, Melhor Música e Melhores Efeitos Sonoros.
 
O uso da Palavra venho muito a propósito, aliás, ao gosto principalmente da indústria e mentalidade norte-americana. A Palavra, como um raciocínio construído, mastigado e expresso pela fala para uma pretendida melhor expressão dos desígnios, desejos e idéias do Autor, acaba funcionando, na verdade, como um enorme simplificador que busca explicar, descomplicar, decodificar a história. Cabe à perfeição dentro de uma indústria que se pretendia de massas e que, portanto, não podia se dar ao luxo de ser difícil ou hermético.
 
BLADE RUNNER, de Ridley Scott, é um ótimo exemplo. Filme baseado em livro de Philip K. Dick (que trata da relação entre humanos e andróides perseguidos dentro de uma Terra angustiada, decadente e sem valores morais), carregava um fundo filosófico que discutia a própria condição do ser humano, difícil de ser transposto para o cinema sem alguns perigos como um filosofês barato ou, no outro extremo, uma aventura inconseqüente e sem sentido. Scott realizou essa transposição muito bem, deixando os produtores preocupados: era um filme muito sério, muito pesado e não transmitia nenhum sentimento de esperança. Exigem algumas mudanças, como modificações no roteiro, mexem no final, trocam algumas cenas, mas o principal foi terem chamado o ator principal para fazer uma narração do filme. Foi esta versão que acabou sendo levada e se tornando um cult-movie consagrado. Alguns anos atrás, o diretor conseguiu retomar a sua versão original e agora estas duas variantes estão à disposição para podermos comparar. Os produtores sabiam o que estavam fazendo: o impacto das cenas, o poder angustiante das imagens são consideravelmente mitigadas, “adocicadas”, desvirtuadas, em suma, por conta da narração, pela ação da Palavra.
 
(passando por cima de centenas de milhares de considerações intermediárias) O cinema europeu vai por uma vertente exatamente oposta. Preocupados em realizar uma proposta de trabalho que se oponha à infantilização e a extrema simplificação do exemplo norte-americano, começam a surgir vários movimentos cinematográficos entre o final da Segunda Guerra Mundial até os começos da década de setenta. Quem está simplificando agora sou eu, mas havia duas características básicas destes movimentos, tais como a Nouvelle Vague francesa, o Neo-Realismo italiano, o Cinema Novo brasileiro: o projeto de um trabalho que fosse único e pessoal, refletindo diretamente as idéias do Autor do filme (em contraposição ao cinema industrial, de massas e impessoal); e o uso extremamente original da Palavra.
 
Nestes casos, a Palavra não funciona nem como reveladora de alguma Verdade extemporânea e absoluta, nem como redutora desta mesma. De fato, apesar de em boa parte desses filmes sejamos invadidos por uma avalanche de contínua falação (vide algumas obras do francês Jean-Luc Godard, como “ACOSSADO”), ela não conduz nem guia ninguém. Na maioria das vezes, ela é chata, incomoda, atrapalha, atravanca. A relação com a imagem se torna conflituosa, contraditória, antagônica. Em “O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS”, Pasolini coloca várias cenas com Jesus estático, parado, declamando as palavras em tom monótono. A sensação é de uma estranheza absoluta. ?Mas a Palavra (nesse caso, em todo o seu sentido bíblico) não é sagrada e, portanto, auto-suficiente? Em TERRA EM TRANSE, Glauber Rocha faz seus personagens cantarem trechos de ópera no meio de uma cena, sem nenhuma relação com a história.
 
Tudo isso fazia parte de uma busca, uma procura por formas diferenciadas e instigantes de tratar com a imagem, de fazer Cinema. Chegaram a um tal extremo de experimentação que, mais do que um Cinema alternativo, chegaram aos limites do anti-Cinema. Estou citando o caso específico de Godard, que continua nessa “experimentação” até hoje.
 
Lavouras
 
Essa foi uma introdução um tanto longa, mas indispensável para discutirmos o filme de Luiz Fernando Carvalho. Porque o que se trata aqui é justamente da relação da Palavra com a Imagem para tentar realizar um produto simbiótico que é Cinema. O que se trata é de uma adaptação de uma obra de Raduan Nassar, caudalosamente verborrágica, sufocantemente intimista, quase absolutamente não-linear. A história não interessa tanto; os fatos são como que arrancados a cada nova torrente de palavras do personagem-narrador André, as lembranças vêm como flash-backs absolutizantes (que se fecham em si mesmas) até que, aos trancos e barrancos, ficamos sabendo que possuem como referência a relação incestuosa com a irmã.
 
Tudo gira em torno disso: o arrependimento, a desestruturação da família, as memórias amargas (mesmo quando felizes, as memórias só reforçam o quanto essa sua antiga felicidade será destruída), a fuga de casa, o resgate pelo irmão. As referências bíblicas são óbvias, não somente pela adaptação de uma parábola cristã, mas principalmente pela utilização da Palavra com todo o seu poder de Verdade. É encarada assim pelo Patriarca que se senta à mesa e obriga a família a ouvir seus sermões. Também é vista dessa forma pela família que ouve e condiciona sua vida àquelas histórias. E é também assim combatida pelo filho rebelde que se desespera ao perceber que essa “verdade” não explica seus desejos inconfessáveis nem os conforta ou perdoa quando estes afinal são realizados.
 
Pois bem, o diretor transpõe para o filme quase que o texto inteiro do livro, literalmente. As cenas são longas, as “conversas” são extensos monólogos entremeados de algumas frases de ligação, a maioria são os pensamentos do personagem ruminando sobre episódios vários, o que torna o filme longo, lento e contemplativo. As citações são textuais e, muitas vezes, correm o risco de serem consideradas redundantes, desnecessárias, pois o que está sendo dito também está sendo, em sua maioria, mostrado. Logo após André dizer que costumava mexer na roupa suja da família e que, dessa forma, a conhecia melhor do que qualquer outro, segue-se uma cena, muda, mostrando as mãos desdobrando lentamente as peças de roupa no cesto. 
 
Pode-se gostar ou não do resultado (entrando assim no nebuloso terreno do gosto pessoal), discordar ou não da opção radical do diretor. O que gostaria de discutir é que Lavoura Arcaica não poderia ter sido filmado de outra forma sem que, ao mesmo tempo, traísse a espinha dorsal da idéia do filme. Luiz Fernando transmuda a Palavra em Imagem, transforma a narração falada em ação visual, a torrente de pensamentos abstratos em cenas concretas, o impacto do raciocínio abstrato no choque dos fotogramas. Em suma, faz Cinema.
 
Pode até parecer incrível dizer isso de um filme com tanta falação, mas em LAVOURA a Imagem é absoluta. É ela quem comanda. Ela transforma, critica, se contrapõe, relativiza o poder da Palavra.. Esta tem a pretensão de ser a portadora da Verdade, através da sua verborragia, de sua posição autoritária, de sua pretensa capacidade democrática de diálogo, mas é contrastada o tempo todo pelo fogo revelador das imagens. A Palavra é confusa, rasa, inibidora, moralista. Insuficiente.
 
A imagem amplia a dimensão conceitual. É impressionantemente importante as roupas sujas serem mostradas logo após serem citadas pelo personagem. Não é uma ilustração, um simples adereço e, portanto, uma redundância fútil mesmo que bonita. O que estamos observando é a transformação da Palavra em Imagem, onde ela é confirmada (sim, ele está falando a verdade) e rapidamente ultrapassada e completada (a cena continua, com detalhes que não foram expressos por André; o detalhe do espelho não é citado por ele). 
 
No livro, o personagem lembra uma parábola narrada pelo patriarca e passa a narração para o pai. Se a cena mostrasse o ator narrando a história, o recado já teria sido dado. O diretor mostra mais, representa a própria história que está sendo contada, o que também poderia ser facilmente considerado como mais uma redundância. Mas temos que lembrar que a cena é, na verdade, uma narração do pai que na verdade é uma narração do André que está tentando expressar suas opiniões a respeito daquelas histórias bestas. Para transmitir toda essa gama de emoções e sentimentos e histórias paralelas, o diretor mostra a cena com os mesmos atores como que  representando a si mesmos em outro contexto. Sem mudar em nada do texto, do que está sendo falado, o diretor torna ainda mais significantes todas as palavras que estão sendo (ou não) ditas. A cena também comprova o virtuosismo narrativo de Luís Fernando, pois todos os personagens falam suas próprias falas, independente de quem estiver dirigindo a narração no momento. Ninguém diz as falas de outro e isso serve tanto para o patriarca quanto para o filho, tanto para o sultão quanto para o mendigo. 
 
O contraste mais forte, mais significativo e que proporciona uma das cenas mais belas do filme são as falas da irmã de André. Em nenhum momento do filme, Ana diz uma única palavra. É um movimento de contestação tão ou até mais forte do que o de André ao pretenso poder da palavra do pai. Ela se torna então como uma espécie de puro sentimento, de pura emoção, de paixão primária e selvagem, sem racionalizações. 
 
E ao desespero verborrágico existencialista de André na capela, ao insistir que ela responda alguma coisa, que afinal de contas ela Fale, ela contrapõe somente o rosto lacrimoso, também desesperado, mas absolutamente mudo. 
 
Assim, neste momento, a Imagem toma conta do universo.  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos na UnB
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 30 de Agosto de 2010 01:28

 

A Universidade de Brasilia realiza nesta quinta-feira, 02 de agosto, um dia de discussões sobre Quadrinhos ('Romances Gráficos') de um ponto de vista da crítica literária.

Eu já deixei claro, tanto aqui pelo Desconcertos quanto em outros espaços, que gosto do termo 'Novela Gráfica', versão direta e limpa do norte americano 'Graphic Novel', que foge da infantilização e subestimação inerentes ao 'Comics' ou 'Gibi', enquanto que a proposta de Will Eisner, 'Arte Sequencial' apesar de muito mais precisa e coerente, é muito fechada e nada popular. 'Quadrinhos' ou 'Histórias em Quadrinhos' têm a vantagem de serem mais simples e acessíveis, sem uma carga negativa muito grande.

'Romance Gráfico', no entanto, considero muito mais complicado, traz vários problemas pois carrega uma conotação de aproximação com a Literatura incorreta e descabida.

O release da UnB expressa esses problemas: ao mesmo tempo que reconhece que o termo é criticado tanto pelos artistas quanto pela própria crítica literária, avança em uma definição, no mínimo, equivocada quando diz que é considerado atualmente 'como um livro que conta uma história em imagens e textos e apresenta um enredo completo e temática adulta, recebendo tratamento gráfico de qualidade. Algo assim como uma obra ficcional de contornos de prosa em formato de quadrinhos".  Essa confusão da mistura da relação entre texto e imagem por si só já bastaria para uma conversa bem acalorada.

Enfim, de qualquer modo, aprecio e apoio essa iniciativa da UnB, gostei muito dos temas propostos e, sobretudo, das obras escolhidas. Vai ser uma boa conversa e gostaria tanto de estar presente.

 

Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos
 
O termo graphic novel cunhado por Richard Kyle, em um manifesto de 1964, surgiu da insatisfação de alguns artistas com as limitações que o termo comics impunha, já que este era associado com frequência a tiras de humor ou revistas para crianças, inviabilizando novos formatos e, principalmente, novos conteúdos.
 
Foi Will Eisner o pioneiro na utilização concreta do termo, impresso na capa de sua obra Um contrato com Deus, publicada em 1976. Iniciava-se assim, dentro de uma concepção de arte sequencial desenvolvida por Eisner, o romance gráfico, visto atualmente como um livro que conta uma história em imagens e textos e apresenta um enredo completo e temática adulta, recebendo tratamento gráfico de qualidade. Algo assim como uma obra ficcional de contornos de prosa em formato de quadrinhos.
 
Apesar dessa concepção de romance gráfico ter seus problemas e não ser totalmente aceita nem pelos artistas, nem pela crítica literária, ela revela o surgimento de uma nova forma de narrativa que tem se aperfeiçoado e, hoje, representa um mercado editorial de grandes proporções.
 
Dentro desse contexto, a Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos se propõe a se debruçar sobre algumas dessas obras de grande repercussão, promovendo um debate que permita uma melhor compreensão de seu alcance no campo literário.
Maus, Persépolis, Fun Home, Retalhos e Epilético são alguns dos quadrinhos - ou romances gráficos, se preferir! - abordados nos paineis. 
 
PROGRAMAÇÃO - DIA 02/09
 
9h às 12h
- O passado no futuro: opressão de gênero e resistência em Persépolis, de Marjani Satrapi e Aya de Yopoung, de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie - Vania M. F. Vasconcelos;
- Para além do diagnóstico: traçados de subversão em Epiléptico, de David B. - Ludimila Moreira Menezes;
- O discurso autobiográfico nos romances gráficos Retalhos, de Craig Thompson, e Epiléptico, de David B. - Maria Clara Dunck Santos;
- A poética do detalhe: retratos da resistência em Maus, de Art Spiegelman e Persépolis - Larissa Silva Nascimento;
- Valsa com Bashir: experiência, memória e guerra - Pablo Gonçalo Pires de Campos Martins
 
14h às 15h45min.
- O silêncio dos imigrantes: de Rawet a Shaun Tan - Gabriel Antunes;
- A construção de um país em Crônicas Birmanesas, de Guy Delisle - Humberto Brauler Rodrigues Pereira;
- Identidade e migração: uma leitura de O chinês americano, de Gene Yang - Stella Montalvão
 
16h às 18h
- O que realmente importa? Memória e subjetivação da arte em Le combat ordinaire - Laeticia Jensen Eble;
- A identidade em quadrinhos: a construção de si em Persépolis, de Marjane Satrapi, e Fun Home, de Alison Bechdel - Ligia Diniz;
- Memórias fraturadas: passado, identidade e imaginação em Borges e Mutarelli - Pedro Galas Araújo
 
 
 
Serviço
Local: Auditório Agostinho da Silva – Departamento de Teoria Literária e Literaturas – Universidade de Brasília
 
Inscrições até 31/8/2010 pelo e-mail:
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Vagas: 30
 
Coordenação:
Ludimila Moreira Menezes e Stella Montalvão.
 
 
 
 
 
Tonight Is What It Means to Be Young
Escrito por Claudinei Vieira   
Dom, 22 de Agosto de 2010 20:03
 
 
 
 
I've got a dream 'bout an angel on the beach
and the perfect waves are starting to come
his hair is flying out in ribbons of gold
and his touch has got the power to stun
I've got a dream 'bout an angel in the forest
enchanted by the edge of a lake
his body's flowing in the jewels alive
and the earth below is starting to shake
 
but I don't see any angels in the city
I don't hear any holy choirs sing
and if I can't get an angel
I can still get a boy
and a boy'd be the next best thing
the next best thing to an angel
a boy'd be the next best thing
 
I've got a dream 'bout a boy in a castle
and he's dancing like a cat on the stairs
he's got the fire of a prince in his eyes
and the thunder of a drum in his ears
I've got a dream 'bout a boy on a star
lookin' down upon the rim of the world
he's there all alone and dreamin' of someone like me
I'm not an angel but at least I'm a girl
 
I've got a dream when the darkness is over
we'll be lyin' in the rays of the sun
but it's only a dream and tonight is for real
you'll never know what it means
but you'll know how it feels
it's give me be over (over)
before you know it's begun
(before you know it's begun)
it's all we really got tonight
stop your cryin' hold on (tonight)
before you know it it's gone (tonight)
tonight is what it means to be young
tonight is what it means to be young
 
let the rebels begin
let the fire be started
we're dancing for the restless and the broken-hearted
let the rebels begin
let the fire be started
we're dancing for the desperate and the broken-hearted
let the rebels begin
let the fire be started ...(tonight is what it means to beyoung...)
we're dancing for the restless and the broken-hearted...(beforeyou know it it's gone...)
let the rebels begin
let the fire be started...(tonight is what it means to beyoung...)
we're dancing for the desperate and the broken-hearted...(beforeyou know it it's gone...)
say a prayer in the darkness for the magic to come
no matter what it seams
tonight is what it means to be young
 
I've got a dream when the darkness is over
we'll be lyin' in the rays of the sun
but it's only a dream and tonight is for real
you'll never know what it means
but you'll know how it feels
it's give me be over (over)
before you know it's begun (before you know it's begun)
it's all we really got tonight
stop your cryin' hold on (tonight)
before you know it's gone (tonight)
tonight is what it means to be young
tonight is what it means to be young...
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Falácias contra a maconha
Escrito por Claudinei Vieira   
Qua, 25 de Agosto de 2010 07:14

 

Os argumentos contra a legalização da maconha são tão rasos e óbvios e apostam tanto no preconceito e na desinformação, que pretendem se arvorar de 'verdades' somente por conta da contínua repetição de frases vazias. São facilmente desmontáveis, pois apesar de ser tão repetida (e repetitiva), sua estrutura de idéias é, na verdade, muito frágil. Guilherme Scalzilli em seu blog faz exatamente isso: desmonta ítem por ítem das falácias e ajuda a colocar seriedade na discussão. 
 
 
Falácias contra a maconha
 
Ronaldo Ramos Laranjeira, professor da Unifesp e coordenador do Instituto Nacional de Políticas sobre Álcool e Drogas, e Ana Cecilia Petta Marques, pesquisadora do mesmo Inpad/CNPQ, atacam a legalização da maconha. O último artigo chama-se “Lobby da maconha” e saiu na Folha. Os argumentos são batidos, mas reúnem as principais deturpações proibicionistas em voga. Elas são citadas abaixo, em itálico, seguidas de meus comentários.
 
1. “Maconha faz mal”: irrelevante. Toda substância pode causar dano à saúde. Os horrores do câncer, do infarto ou do vício jamais serviriam para proibir legumes tratados com agrotóxicos, frituras ou remédios que provocam dependência. O argumento da saúde pública tem a mesma duração de um copo de cachaça.
 
2. “Efeito terapêutico não é comprovado”: mentira. Procurem os trabalhos do Dr. Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Depois sigam suas indicações por experiências semelhantes no Canadá, nos EUA e em toda a Europa. Mas, afinal, acadêmicos não deveriam possuir esse tipo de informação?
 
3. Efeito terapêutico é obrigatório: mentira. A descriminalização da maconha é endossada por inúmeros argumentos, de várias disciplinas. O enfoque no uso medicinal da erva é armadilha retórica para limitar esses argumentos a apenas um, frágil e sujeito a endossos de “autoridades competentes” que têm interesses diretos na questão. Nenhuma substância legalizada precisa ser obrigatoriamente benéfica à saúde.
 
4. “Droga insegura”: alguém conhece droga segura? Quem leva o assunto a sério sabe que existem dezenas de maneiras de minimizar os danos da cannabis. É possível inalar fumaça fria, gerada por plantas controladas, com baixo teor de resíduos tóxicos. E até saborear bolos de chocolate com cobertura de marshmallow...
 
5. “Nossa legislação já é liberal”: mentira. É tão repressiva e obsoleta que os brasileiros são impedidos pelo próprio Judiciário de questioná-la publicamente. Ou são imediatamente chamados de lobistas. Se alguém quiser conhecer leis avançadas, procure na Holanda, na Espanha, em Portugal, no Canadá e na Argentina, onde se permite o cultivo doméstico de maconha.
 
6. “A legalização disseminaria o uso”: mentira. Os governos dos países acima possuem dados bastante claros a respeito, disponíveis aos nobres doutores. Desde a Lei Seca, prevalece uma lógica imutável: o consumo só aumenta onde há proibição. Também a criminalidade, a corrupção policial e a marginalização do usuário.
 
7. O tal “lobby”: uma tolice conspiratória. Talvez convenha a colunistas irados (como Ruy Castro) ou a governos repressores, mas não parece adequado em manifestações científicas. O único lobby atuando nesse debate é favorável ao equívoco repressivo. Seu misterioso poder de convencimento pode ser aferido pela facilidade com que certos acadêmicos se dispõem a repetir bobagens que não passam no escrutínio mais benevolente. E, já que tocaram no assunto, uma pergunta singela: quanto os laboratórios farmacêuticos deixariam de lucrar com a legalização da maconha?
 
Guilherme Scalzilli é, segundo o próprio, Historiador e escritor, colabora regularmente com a revista Caros Amigos, o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.
 
 
 
 
 
 
 
 
A grande arte da luz e da sombra - Arqueologia do Cinema
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 23 de Agosto de 2010 03:23

 

Apesar de ser tão jovem, acabou de completar pouco mais de cem anos de idade, a arte cinematográfica possui uma considerável quantidade de estudos historiográficos, biográficos, analíticos e até filosóficos. Apesar disso, considerada a arte do século XX mesmo que muitas vezes cotada a desaparecer principalmente por conta do aparecimento da televisão, ela abre o século XXI com toda a pujança e força de uma adolescente feroz. Este enorme número de materiais de estudo acaba nos levando a alguns perigos: primeiro, a de nos conduzir a um falso sentimento de conhecimento e tranqüilidade; é como se já soubéssemos tudo o que pudesse ser sabido. Por outro lado, faz-nos desconsiderar alguns temas considerados “marginais”, “sem muita importância”.
 
Exemplo claro dessa ambivalência é o nosso posicionamento geral perante os primeiros passos do cinema. É comum considerar o cinema mudo e preto-e-branco (os charles-chaplins e harold-loyds da vida) como os antecessores imediatos, e infantis, do “verdadeiro” cinema, sério, bem construído e estruturado. Esta é uma falácia comum que ultimamente está sendo destruída passo-a-passo. É até chocante perceber o quanto este cinema “infantil” não tem, na verdade, nada de primário e que muito da arquitetura dramática de todo o cinema atual já existia desde o começo, totalmente estruturada e conscientemente utilizada.
 
O que dizer então da Pré-História do Cinema? Aliás, qual é mesmo o sentido desta frase? Vejamos: a base da existência do Cinema é a Fotografia, não é mesmo? Se o Cinema em si é uma ilusão de ótica provocada pela rápida sucessão de fotografias fixas, sua “pré-história” seria o desenvolvimento da própria arte fotográfica, certo? Pois é... Não! A Fotografia é um dos fatores fundamentais, sem dúvida, mas não é o único.
 
O que Laurent Mannoni faz em A GRANDE ARTE DA LUZ E DA SOMBRA - ARQUEOLOGIA DO CINEMA (Unesp / Senac) é descortinar um imenso universo de uma história fantástica ao resgatar a história dos homens preocupados em construir aparelhos que projetem imagens. Em movimento. É uma relação impressionante de aparelhos, experimentações, pesquisas. É uma história empolgante e fascinante, narrada com uma simplicidade e fervor que atiçam ainda mais a leitura. 
 
Essa preocupação pela projeção da imagem é muito antiga, vai alem do final do século XIX, passa do XVIII. Mannoni começa sua história ali pelo século XIII! Mais: se formos sérios podemos regredir até à Antiguidade... Afinal, o princípio da Câmara Escura é conhecido por Aristóteles. 
 
CAMARA ESCURA. Lição de Física Básica Escolar. ÓTICA: 
 
Tome-se um ambiente completamente vedado à luz, uma sala ou uma caixa. Faça-se um pequeno orifício em algum ponto do ambiente. No lado ou parede opostos ao do orifício, ficará refletida a imagem do ambiente exterior. Se a parede estiver coberta com um material apropriado, tela branca por exemplo, a imagem ficará mais nítida. Este simples experimento ainda hoje impressiona, imagine-se então para um Aristóteles. Com um agravante, um detalhe que fez muito cientista perder o sono pelos séculos afora: a imagem refletida estará de ponta-cabeça e invertida, isto é, da esquerda para a direita e vice-versa. Fenômeno curioso mas facilmente explicável pela Ótica atual.
 
Lembremos que a imagem não está, por natureza, fixa e sem movimento. Se o ambiente fechado for uma sala e o ambiente externo for uma rua, a imagem captará toda a movimentação. 
 
Isso leva diretamente a duas preocupações: por um lado, a da fixação desta imagem; e por outro, um problema óbvio, o da luz, já que não é sempre que existe luz natural do Sol. Por exemplo: à noite! Uma vela então é um bom substituto, mas muito provisório. Uma lanterna, lampiões, são bem melhores, mas precisam ser bem construídos para que não pegue fogo na caixa, na tela ou no próprio projetista. Jogos de espelhos e vidros, com lentes invertidas, ajudam ainda mais. Com uma projeção familiar, tosca e simples, e ao mesmo tempo tão eficiente leva-se à questão de O Quê ser projetado: um desenho pintado em um vidro transparente, amplia as possibilidades ad infinitum. Será uma imagem parada, mas há um truque muito simples e prático: mexa a vela ou o lampião de um lado para o outro! Ou então faça vários orifícios e aí então mexa na vela. 
 
Veja-se bem: estamos falando dos séculos entre o XIII e o XIX, onde a Câmara Escura, ricamente trabalhada, pesquisada, renomeada como Lanterna Mágica é um sucesso popular absoluto. E se tudo isso parece á primeira vista muito bobo, então é porque o leitor nunca foi a um circo ou um parque de diversões e assistiu a um show de transformações da Monga, a mulher-macaco. Os lanternistas, os mascates com um caixa de lanterna-mágica nas costas que percorriam a Europa com suas projeções populares e “miraculosas”, só desapareceram completamente nos primeiros anos do Século XX! 
 
Minuciosa, detalhada e pacientemente, Mannoni nos revela todos os detalhes, todos os passos, todos os percalços, máquina por máquina, experimento por experimento, pesquisador por pesquisador, cientista por cientista. 
 
Este lado da projeção e da iluminação é um viés. Outra vereda histórica é o da fixação da imagem. Que se liga, embora não seja uma relação direta, a uma pequena característica do organismo humano, especificamente o da retina, conhecida como “persistência retiniana” ou “persistência da visão”. Todos sabemos o que é isso. Se olharmos fixamente para a luz de uma vela ou  lâmpada, continuaremos “enxergando” um pequeno ponto luminoso, mesmo que fechemos o olho. O grande físico Isaac Newton foi um dos pioneiros na explicação deste fenômeno. Ele olhava para o Sol e anotava quanto tempo a iluminação permanecia em sua vista. Obviamente, quase ficou cego: durante meses, não conseguiu se livrar de um círculo negro que embaçava seus olhos. 
 
A retina retém por um certo tempo a imagem de um objeto. Se substituirmos rapidamente esta imagem por uma outra parecida, mas com uma certa posição diferente e mais outra imagem e outra... voilá! A impressão que teremos é que estas imagens (que sabemos serem fixas) darão a ilusão de estarem se mexendo. Portanto, se juntarmos este principio da persistência retiniana, com o desenvolvimento da fotografia ou o daguerreotopia, em uma sala escura e com uma iluminação apropriada... teremos o Cinema, certo?
 
Ainda não. Resta o grande problema de fazer com que estas fotografias se sucedam de uma forma harmônica para que a ilusão seja perfeita. É necessário um aparelho que a) pegue a foto (ou o desenho), b) coloque-a devidamente no foco de luz, c) substitua-a no tempo exato para que a imagem não se perca ou seja “esquecida e d) tudo isso precisa ser manobrado do modo mais eficiente para que tudo não fique embolada,a fita não se quebre, a lâmpada não se apague ou provoque uma explosão e taque fogo na sala, na máquina, no projetista, etc e tal. 
 
Uma grande sacada foi fazer pequenos furos nas margens das fotos, coloca-las em um mecanismo de roldanas com varetas que penetram nos furos, puxando-as e movimentando-as, com um motor que imprime um ritmo regular. 
 
Mannoni descreve cada um destes aparelhos, sua sucessão e seu desenvolvimento: o coreutoscópio giratório, o estereoscópio, o bioscópio, o fantascópio, o fotobioscópio, passando pelas fantasmagorias e os polioramas, a fundamental zoopraxografia, a cronofotografia, o fonoscópio, o praxinoscópio, desembocando no quinetoscópio e no quinetógrafo. Isso só para citar alguns dos mais importantes. 
 
Pois bem, com o quinetoscópio de Thomas Edison temos que quase praticamente os filmes tais quais como os conhecemos hoje em dia. Este aparelho era uma caixa individual com um visor onde cada pessoa mediante o pagamento do ingresso aproximava o rosto e via uma sucessão de imagens, às vezes até com um certo enredo.
 
Filmes, sim. Cinema...? Ainda não. Isto se concretiza de verdade quando em 1895, dois irmãos, os Lumiere (que nome magnífico para tais pessoas!, impossível ser mais apropriado), promovem com o seu cinematógrafo uma sessão aberta para várias pessoas ao mesmo tempo, em uma mesma sala, em uma mesma tela, onde todos sentem o impacto da imagem-que-se-mexe. 
 
A emoção, a paixão, e o amor que Laurent Mannoni consegue passar para sua narrativa é o ingrediente indispensável para que o seu livro não seja uma simples sucessão de relatórios de maquinas de nomes exóticos. Lemos “A Grande Arte da Luz e da Sombra” como um verdadeiro romance de suspense, palpitante, misterioso e instigante. A bela edição das editoras Senac e Unesp respeita a farta iconografia original: o livro é recheado de desenhos, fotos e ilustrações. Nada menos que o necessário para tal obra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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