Relógio de Prata
Escrito por Claudinei Vieira   
Qua, 16 de Setembro de 2009 01:57


Este é o quarto do seu Apolinário. É tão pequeno que logo ao abrir a porta fica-se diante de sua cama. Ao lado, um pequeno fogareiro para suas refeições, uma mesinha de centro encostada no canto, e só. Seu Apolinário está morto há dois dias. Ninguém no prédio sabe disso e ainda vai levar algumas semanas, pois era um recluso, não saía do quarto e não tinha amigos. Não inspirava simpatia, era um louco, um safado, conforme os vizinhos. 
 
Esta é a sua cama. Temos que passar por cima dela, e dele, pois não há espaço para rodeá-los. Ele está deitado de costas. Sua mão direita escorregou para fora do colchão e alguns dedos estão mergulhados dentro da poça de sangue ressecado, pois o braço é comprido. Tem que se tomar cuidado para não pisar na poça, mas não há como mexer na caixa sem se sujar. Está debaixo da cama, enterrada em uma camada de poeira e merda de baratas.
 
Esta é a caixa. Resto de um antigo par de sapatos italianos com salto reforçado. Algumas cartas. Outros papéis mofados indefiníveis e irreconhecíveis. Duas gravatas esburacadas. Uma coleção de lapiseiras quebradas. E o relógio de prata falsificada.
 
Um relógio de prata! Sonho da minha infância, objeto de consumo entrevisto em filmes e em fotos antigas. Símbolo e mito de pessoas ricas, burgueses gordos e satisfeitos com a vida. A corrente que ligava o bolso da calça ao bolso do colete. Meu universo parava quando o burguês puxava da corrente e olhava as horas com seu jeito displicente e aborrecido. Ou quando o xerife do velho oeste apertava o pino para observar, não as horas, a foto da mulher assassinada pelo seu melhor amigo ou raptada pelos índios. 
 
Um relógio de prata. Puxa vida!
 
 
relógio de prata
 
ilustração de Hijak Skank
 
 
 
 
Comentários (6)
  • Tati
    quantas vezes eu vou te dizer que amo esse conto?
  • akio  - Relógio
    Belo conto, bela ilustração, química perfeita.
    Claudinei, você está com o relógio?
    Abraço
    Akio
  • claudinei vieira  - relógio e camisa
    Akio, por causa desse conto eu ganhei! um relógio prateado exatamente do jeito que eu imaginava, acredita! Muito bacana isso. Camisa. Cara, eu ouvi tanto essa música!, tinha até o vinil que deve ter ficado gasto com o tanto que ouvi. O que não conhecia era esse clipe. Se eu vi alguma vez, apaguei completamente. Mas temos agora o youtube para ajudar, coisa que pra época seria somente ficção científica. abraços!
  • claudinei vieira  - conto
    Tati, hum, deixe-me pensar,sim, eu acho que você já elogiou esse conto, uma ou duas vezes, se não me engano... Bjs!
  • Anônimo  - Narração singular
    Muito bom o conto. Não sei se sou eu que leio de menos, ou se a sua narrativa pe singular. Desconheço essa técnica.
    O Espírito do conto também é bem nítido. A surpresa do narrador com o relógio, e a naturalidade em descever todo o cenário bizarro em que encontraram o relógio, ou melhor o Apolinário...rs
    Parabéns!
    Sabrili
    saguileira@hotmail.com
  • Claudinei Vieira  - conto
    VAleu, Sabrili! Olha, quero crer que é a minha técnica sensacional que torna esse conto do Relógio de prata fantástico, heheh! De qualquer forma, gosto sim bastante dele. Obrigado pelas palavras!
    bjs
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