UM BANCO NO PARQUE TRIANON
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 21 de Agosto de 2009 08:16

Tarde ensolarada em São Paulo, Avenida Paulista. Isto é, quente, abafada e poluída. Barulho, sujeira e fumaça. Isto é, tudo dentro da mais absoluta normalidade. Pedro soube, portanto, que havia feito besteira de comer feijoada no almoço. Barriga pesada, ainda tinha alguns minutos antes de voltar, enxergou um banco amplo em frente ao Parque Trianon, um oásis inesperado, estava vazio, debaixo de algumas árvores que sobravam por cima do parque, não se ligou na absurda impossibilidade daquele banco. Porque, além, tudo correto, a feirinha hippie, os camelôs, os passantes, o chinês do yakissoba aproveitando a ausência do rapa.
 
Sentou, respirou aliviado, a sombra era mais fresca do que imaginara, tirou a garrafinha de água já não mais gelada, pensou no serviço a ser completado, pensou em sua namorada que trabalhava no mesmo ramo mas em outra empresa no lado oposto da cidade, pensou que teriam que desmarcar o encontro do final-de-semana, ambos trabalhavam, pensou no serviço farto a sua espera, pensou em sua mãe (!), e um tanto de preocupação para que terminasse logo aquela marcha / dos / estudantes / contra / o / aumento / da / passagem / do/ ônibus pois ainda teria que visitar um cliente no final da tarde. Dispôs-se, afinal, a levantar e encarar o escritório quando percebeu que não estava sozinho. 
 
Um senhor careca, mirrado, terno, calça, gravata, impecáveis, roupas limpérrimas e até pareciam ... lisas demais, muito retas (Pedro estava querendo dizer para si mesmo que as roupas do seu agora-companheiro-de-banco estavam Engomadas. Mas como nem conhecia esta palavra, então não se disse nada). Aquele senhor lia um jornal, e era bem empertigado, coluna ereta, cabeça levantada, os sapatos (estava esquecendo dos sapatos) brilhavam de graxa, e era muito ... careca, quer dizer, sobressaía, nem era uma questão de idade, pois não tão velho assim, um crânio moreno bem chamativo. Havia até mesmo uma certa aura de ridículo a sua volta, embora se identificasse também uma certa dignidade.
 
O tal senhor terminou uma linha do texto, e enquanto virava a página do jornal, voltou-se para ele e disse:
 
- Como vai, Pedro?
 
Ótimo! Além de ter sido pego no embaraço flagrante de olhar direto na careca do outro, Pedro ainda se viu naquela maldita situação de ser cumprimentado por alguém que não tinha menor idéia quem fosse. E, apesar de se orgulhar de uma perfeita memória visual ('fotográfica. nunca esqueço um rosto, mesmo que não lembre do nome'), neste caso não houve nenhum tipo de lembrança. Ficou sem saber o que responder, e deve ter transparecido, pois o senhor disse, agora com um sorrisinho simpático:
 
- Não se preocupe.
 
Certo. Não se preocuparia, então, Pedro. Estava tudo bem. Definitivamente, um 'não se preocupe' era a última coisa que esperava ouvir. Olhou para um lado para o outro, olhou para o senhor, que voltara a ler o jornal, sem parecer que estivesse perturbado. Por que estaria?
 
- Desculpe, com licença - os olhos daquele cara eram de uma impressionante fixidez - Eu ... não lembro de onde nos conhecemos. Foi daqui da cidade mesmo?
 
O velho (afinal de contas, tinha muito mais idade do que parecera a princípio) pausou um instante, abaixou o jornal e disse:
 
- Você trabalha naquela agência de publicidade com um nome italiano. Mazzuchero, Mazzuchiro... - não foi uma pergunta.
 
- MAZZUCHARO. Sim, é isso mesmo. 
 
- Então. 
 
Foi um 'então' explicativo, que se pretendia definitivo. Continuou mantendo o olhar fixo até Pedro murmurar um baixinho “ah, sim” e retomou ao jornal. Pedro começou a se sentir meio incomodado. Algo não estava certo, não senhor, não estava. Quem sabe, um início de azia. Ele preparou uma palavra de despedida, mas antes que se levantasse, o velho falou olhando para o outro lado da rua:
 
- Que garoto besta!
 
Pedro olhou também, mas não enxergou nada. Isto é, viu muita gente, muita coisa, nada chamou sua atenção. Levantou-se sem dizer nada, um tanto embaraçado, tentou de novo uma de adeus, de repente na outra calçada um tumulto. Pelo que pôde perceber, um trombadinha agarrara a bolsa de uma mulher e saiu correndo. Logo entendeu o comentário do velho: na esquina, três passos de distãncia, um par de pms, puro azar, desleixo, falta de atenção do pivete. 
 
- O pior é que não tinha nada de valor naquela bolsa.
 
Nisso, Pedro teve que sorrir. O velhinho tava zoando da cara dele, queria convencê-lo de que adivinhava as coisas. Era algum truque. Pegadinha. Tinha que ir embora.
 
- Tenho que ir embora. Voltar para o serviço. Prazer... ver o senhor, hein. Cuide-se, hein.
 
- Cuidado pra atravessar a rua.
 
Pedro escancarou o sorriso, agora.
 
- Sem dúvida. Tomarei cuidado, sim. A gente se vê.
 
O velho não respondeu, entretido. Pedro parou no semáforo, olhou para trás, o olhar fixo de novo, fez um gesto com a mão, um tipo de aceno, sem resposta. Aí, a questão pegou Pedro de vez. Há muitos anos não havia bancos de sentar em frente ao Trianon!, nem ao longo da Avenida Paulista, pois os mendigos acabavam usando-os como cama ou mini-casa. Apertou os olhos: até onde viu, dos dois lados, continuava não tendo mais nenhum banco. Somente aquele único.
 
O sol a pino, a feijoada pesava, o trabalho acumulava e o esperava, nunca atravessou a rua com tamanha atenção em toda a sua vida, voltou-se na calçada, o olhar do velho empertigado-demais sentado em um banco que não poderia existir.
 
ilustração de Hijak Skank 
 
in CONTOS 
 

 
 
Comentários (4)
  • akio  - Um banco no Trianon
    Claudinei. Confesso que só passei uma vez no Parque Trianon, na década de 70/80?
    Nem sei como está. O personagem Pedro é envolvido pelo cansaço depois de uma refeição pesada e súbita aparição de um velho que sabia até o seu nome. Talvez um delírio, a necessidade de um amigo imaginário, que naquele momento, Pedro construiu. Ele estava entre a fronteira da realidade e da fantasia, envolvido pela magia do lugar. A outra interpretação: não seria o velho Pedro relembrando a sua juventude como fantasma do passado sentado no banco que sempre existiu e que agora não existe mais?
    É um conto difícil, um quebra cabeça. Tentei.
    Abraço
    Akio
  • Anônimo
    Confesso que pensei em Richard Bach
    No Creditar naquilo que vai alem dos olhos.
    Acreditar nas moradas,e na "magia".

    É sou crédula e acredito que aquele Senhor,era alguem a proteger e ajudar alem de abraçar o perdido" Pedro.

    carinho
  • Denise
    O comentário acima é meu rs
    esquecida q sou não havia me identificado rs
  • claudinei vieira  - trianon
    Denise e Akio, suas interpretações e possibilidades de compreendimento deste meu texto são sensacionais. Pessoalmente, não faço a menor idéia de quem ou o quê pode ser este velhinho! VAleu. bjseabraços!
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