Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos na UnB
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 30 de Agosto de 2010 01:28

 

A Universidade de Brasilia realiza nesta quinta-feira, 02 de agosto, um dia de discussões sobre Quadrinhos ('Romances Gráficos') de um ponto de vista da crítica literária.

Eu já deixei claro, tanto aqui pelo Desconcertos quanto em outros espaços, que gosto do termo 'Novela Gráfica', versão direta e limpa do norte americano 'Graphic Novel', que foge da infantilização e subestimação inerentes ao 'Comics' ou 'Gibi', enquanto que a proposta de Will Eisner, 'Arte Sequencial' apesar de muito mais precisa e coerente, é muito fechada e nada popular. 'Quadrinhos' ou 'Histórias em Quadrinhos' têm a vantagem de serem mais simples e acessíveis, sem uma carga negativa muito grande.

'Romance Gráfico', no entanto, considero muito mais complicado, traz vários problemas pois carrega uma conotação de aproximação com a Literatura incorreta e descabida.

O release da UnB expressa esses problemas: ao mesmo tempo que reconhece que o termo é criticado tanto pelos artistas quanto pela própria crítica literária, avança em uma definição, no mínimo, equivocada quando diz que é considerado atualmente 'como um livro que conta uma história em imagens e textos e apresenta um enredo completo e temática adulta, recebendo tratamento gráfico de qualidade. Algo assim como uma obra ficcional de contornos de prosa em formato de quadrinhos".  Essa confusão da mistura da relação entre texto e imagem por si só já bastaria para uma conversa bem acalorada.

Enfim, de qualquer modo, aprecio e apoio essa iniciativa da UnB, gostei muito dos temas propostos e, sobretudo, das obras escolhidas. Vai ser uma boa conversa e gostaria tanto de estar presente.

 

Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos
 
O termo graphic novel cunhado por Richard Kyle, em um manifesto de 1964, surgiu da insatisfação de alguns artistas com as limitações que o termo comics impunha, já que este era associado com frequência a tiras de humor ou revistas para crianças, inviabilizando novos formatos e, principalmente, novos conteúdos.
 
Foi Will Eisner o pioneiro na utilização concreta do termo, impresso na capa de sua obra Um contrato com Deus, publicada em 1976. Iniciava-se assim, dentro de uma concepção de arte sequencial desenvolvida por Eisner, o romance gráfico, visto atualmente como um livro que conta uma história em imagens e textos e apresenta um enredo completo e temática adulta, recebendo tratamento gráfico de qualidade. Algo assim como uma obra ficcional de contornos de prosa em formato de quadrinhos.
 
Apesar dessa concepção de romance gráfico ter seus problemas e não ser totalmente aceita nem pelos artistas, nem pela crítica literária, ela revela o surgimento de uma nova forma de narrativa que tem se aperfeiçoado e, hoje, representa um mercado editorial de grandes proporções.
 
Dentro desse contexto, a Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos se propõe a se debruçar sobre algumas dessas obras de grande repercussão, promovendo um debate que permita uma melhor compreensão de seu alcance no campo literário.
Maus, Persépolis, Fun Home, Retalhos e Epilético são alguns dos quadrinhos - ou romances gráficos, se preferir! - abordados nos paineis. 
 
PROGRAMAÇÃO - DIA 02/09
 
9h às 12h
- O passado no futuro: opressão de gênero e resistência em Persépolis, de Marjani Satrapi e Aya de Yopoung, de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie - Vania M. F. Vasconcelos;
- Para além do diagnóstico: traçados de subversão em Epiléptico, de David B. - Ludimila Moreira Menezes;
- O discurso autobiográfico nos romances gráficos Retalhos, de Craig Thompson, e Epiléptico, de David B. - Maria Clara Dunck Santos;
- A poética do detalhe: retratos da resistência em Maus, de Art Spiegelman e Persépolis - Larissa Silva Nascimento;
- Valsa com Bashir: experiência, memória e guerra - Pablo Gonçalo Pires de Campos Martins
 
14h às 15h45min.
- O silêncio dos imigrantes: de Rawet a Shaun Tan - Gabriel Antunes;
- A construção de um país em Crônicas Birmanesas, de Guy Delisle - Humberto Brauler Rodrigues Pereira;
- Identidade e migração: uma leitura de O chinês americano, de Gene Yang - Stella Montalvão
 
16h às 18h
- O que realmente importa? Memória e subjetivação da arte em Le combat ordinaire - Laeticia Jensen Eble;
- A identidade em quadrinhos: a construção de si em Persépolis, de Marjane Satrapi, e Fun Home, de Alison Bechdel - Ligia Diniz;
- Memórias fraturadas: passado, identidade e imaginação em Borges e Mutarelli - Pedro Galas Araújo
 
 
 
Serviço
Local: Auditório Agostinho da Silva – Departamento de Teoria Literária e Literaturas – Universidade de Brasília
 
Inscrições até 31/8/2010 pelo e-mail:
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Vagas: 30
 
Coordenação:
Ludimila Moreira Menezes e Stella Montalvão.
 
 
 
 
 
A Queda de Murdock. E a de Frank Miller.
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 26 de Agosto de 2010 07:18

 

"De todos os grandes artistas de HQs da atualidade, de Stan Lee a Alan Moore, de Neil Gaiman a Art Spiegelman, entre vários outros, Miller é o que melhor sabia mesclar suas propostas criativas e inovadoras, aliadas a uma técnica refinada (tanto no desenho quanto na escrita), travestidas e misturadas com o apelo comercial e com as necessidades de uma indústria de massas.

Parece, no entanto, que nem ele mais acredita de que foi capaz de realizar aquilo; hoje em dia o que produz é de uma mediocridade absurda.

Ou puro lixo."

 

 

Este é um trecho do meu texto inédito sobre a graphic novel 'A queda de Murdock', do outrora genial quadrinista norte-americano Frank Miller, com o qual abro assim um espaço de reflexão sobre o universo dos quadrinhos no belo site de literatura e cultura VERBO 21, capitaneado pelo escritor Lima Trindade. 

A idéia não é focar em lançamentos ou em notícias cotidianas, mas em fazer uma discussão mais aprofundada sobre os pontos mais sérios que os quadrinhos proporcionam. 

 

Só para sentir o naipe de quem estou acompanhando, uns exemplos do que está rolando na edição desse mês:

 

A ficção muito próxima a uma realidade louca - Chico Lopes

Poesia sem “máscara de ferro - Francisco Carvalho

Michael Jackson foi mesmo um gênio? - Ademir Luiz

España, tierra ofendida – Parte II - Rodríguez Bustos

Pio Vargas: um beat no Olimpo - Ademir Luiz

Além de

Marcelo Nascimento - Poemas

Flávio Offer - Fábula

Denny Yang - Conto

Thiago Lins - Conto

Claudio Peil Marques Vaz - Poemas

Além de

Cinema Riscado

Com que Roupa Eu Vou

Daguerreótipos

Mesa Posta

Seara do Gallo

Verde que te quero verde

Vértebra

Além de

entrevistas, colunistas, música, e-conto gratuito...

 

 

 

Opa. Tremenda responsabilidade e gozo de prazer por participar deste site, e só posso agradecer ao grande Lima por essa oportunidade. VAleu, camarada.

 

VERBO 21

http://www.verbo21.com.br

 

 

 

 

 
Falácias contra a maconha
Escrito por Claudinei Vieira   
Qua, 25 de Agosto de 2010 07:14

 

Os argumentos contra a legalização da maconha são tão rasos e óbvios e apostam tanto no preconceito e na desinformação, que pretendem se arvorar de 'verdades' somente por conta da contínua repetição de frases vazias. São facilmente desmontáveis, pois apesar de ser tão repetida (e repetitiva), sua estrutura de idéias é, na verdade, muito frágil. Guilherme Scalzilli em seu blog faz exatamente isso: desmonta ítem por ítem das falácias e ajuda a colocar seriedade na discussão. 
 
 
Falácias contra a maconha
 
Ronaldo Ramos Laranjeira, professor da Unifesp e coordenador do Instituto Nacional de Políticas sobre Álcool e Drogas, e Ana Cecilia Petta Marques, pesquisadora do mesmo Inpad/CNPQ, atacam a legalização da maconha. O último artigo chama-se “Lobby da maconha” e saiu na Folha. Os argumentos são batidos, mas reúnem as principais deturpações proibicionistas em voga. Elas são citadas abaixo, em itálico, seguidas de meus comentários.
 
1. “Maconha faz mal”: irrelevante. Toda substância pode causar dano à saúde. Os horrores do câncer, do infarto ou do vício jamais serviriam para proibir legumes tratados com agrotóxicos, frituras ou remédios que provocam dependência. O argumento da saúde pública tem a mesma duração de um copo de cachaça.
 
2. “Efeito terapêutico não é comprovado”: mentira. Procurem os trabalhos do Dr. Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Depois sigam suas indicações por experiências semelhantes no Canadá, nos EUA e em toda a Europa. Mas, afinal, acadêmicos não deveriam possuir esse tipo de informação?
 
3. Efeito terapêutico é obrigatório: mentira. A descriminalização da maconha é endossada por inúmeros argumentos, de várias disciplinas. O enfoque no uso medicinal da erva é armadilha retórica para limitar esses argumentos a apenas um, frágil e sujeito a endossos de “autoridades competentes” que têm interesses diretos na questão. Nenhuma substância legalizada precisa ser obrigatoriamente benéfica à saúde.
 
4. “Droga insegura”: alguém conhece droga segura? Quem leva o assunto a sério sabe que existem dezenas de maneiras de minimizar os danos da cannabis. É possível inalar fumaça fria, gerada por plantas controladas, com baixo teor de resíduos tóxicos. E até saborear bolos de chocolate com cobertura de marshmallow...
 
5. “Nossa legislação já é liberal”: mentira. É tão repressiva e obsoleta que os brasileiros são impedidos pelo próprio Judiciário de questioná-la publicamente. Ou são imediatamente chamados de lobistas. Se alguém quiser conhecer leis avançadas, procure na Holanda, na Espanha, em Portugal, no Canadá e na Argentina, onde se permite o cultivo doméstico de maconha.
 
6. “A legalização disseminaria o uso”: mentira. Os governos dos países acima possuem dados bastante claros a respeito, disponíveis aos nobres doutores. Desde a Lei Seca, prevalece uma lógica imutável: o consumo só aumenta onde há proibição. Também a criminalidade, a corrupção policial e a marginalização do usuário.
 
7. O tal “lobby”: uma tolice conspiratória. Talvez convenha a colunistas irados (como Ruy Castro) ou a governos repressores, mas não parece adequado em manifestações científicas. O único lobby atuando nesse debate é favorável ao equívoco repressivo. Seu misterioso poder de convencimento pode ser aferido pela facilidade com que certos acadêmicos se dispõem a repetir bobagens que não passam no escrutínio mais benevolente. E, já que tocaram no assunto, uma pergunta singela: quanto os laboratórios farmacêuticos deixariam de lucrar com a legalização da maconha?
 
Guilherme Scalzilli é, segundo o próprio, Historiador e escritor, colabora regularmente com a revista Caros Amigos, o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.
 
 
 
 
 
 
 
 
A Colheita de Imagens de “Lavoura Arcaica” - Quando a Palavra se faz Cinema
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 23 de Agosto de 2010 03:41

 

 
 
 
Som e Palavra
 
Cinema é, por definição, Imagem. Imagem que se mexe. A palavra CINE vem do grego e significa Movimento e foi tomada pelos Lumière para formar a base da palavra do seu invento: Cinématographe, a foto que se mexia, a imagem parada, estática que se transmudava em ser vivo que andava, se movimentava (como na vida “real”). Já comentei em outro artigo o quanto é preciso relativizar a importância do Som para o Cinema. Este continuaria existindo como tal se, por algum acaso, não houvesse esta circunstância sonora, este comentário ao que está se passando no campo visual. Não são necessárias palavras para entender o que se passa em um filme de Carlitos.
 
De uma forma ou de outra, o Som ou a Palavra nunca estiveram ausentes de uma projeção: fosse como acompanhamento musical de algum instrumentista que tocasse melodias seguindo as cenas passo a passo, fosse pelo apresentador da função que falava o tempo inteiro instigando, fazendo suspense ou até mesmo esmiuçando o que os espectadores estavam assistindo. Eram chamarizes para atrair a atenção, para tornar a sessão ainda mais atraente. Em outras palavras, simples acessórios para que as pessoas assistissem com mais sofreguidão e vontade.
 
(Não estou, de forma alguma, querendo ser saudosista de um pretenso e antigo cinema perfeito, ou de Arte, onde a falta de som significaria automaticamente qualidade artística profunda. No cinema moderno, percebemos, e somos educados a participar do fato, do quanto a conjuntura sonora, seja como simples sons de ruídos ou música ou pensamentos expressos por diálogos ou narração, são intrínsecos para uma melhor condução do discurso narrativo. Mas, quero separar as suas devidas prioridades, tanto “artísticas” quanto cronológicas.)
 
O que BLADE RUNNER tem a ver com isso
 
Como podem perceber estou fazendo uma distinção bem clara entre Som e Palavra; no Cinema Mudo, existia a Palavra, mesmo que afônica, quando se costumava colocar aqueles letreiros com trechos de “diálogos” dos atores ou comentários do autor. Com o advento do Cinema Falado, Som e Palavra dão a impressão de terem se casado, mas continuaram sendo completamente diferentes. Atualmente, existe uma pré-disposição para fazer distinções ainda mais específicas: compreendemos muito bem, por exemplo, porque a Academia de Hollywood concede prêmios separados para Melhor Trilha Sonora, Melhor Música e Melhores Efeitos Sonoros.
 
O uso da Palavra venho muito a propósito, aliás, ao gosto principalmente da indústria e mentalidade norte-americana. A Palavra, como um raciocínio construído, mastigado e expresso pela fala para uma pretendida melhor expressão dos desígnios, desejos e idéias do Autor, acaba funcionando, na verdade, como um enorme simplificador que busca explicar, descomplicar, decodificar a história. Cabe à perfeição dentro de uma indústria que se pretendia de massas e que, portanto, não podia se dar ao luxo de ser difícil ou hermético.
 
BLADE RUNNER, de Ridley Scott, é um ótimo exemplo. Filme baseado em livro de Philip K. Dick (que trata da relação entre humanos e andróides perseguidos dentro de uma Terra angustiada, decadente e sem valores morais), carregava um fundo filosófico que discutia a própria condição do ser humano, difícil de ser transposto para o cinema sem alguns perigos como um filosofês barato ou, no outro extremo, uma aventura inconseqüente e sem sentido. Scott realizou essa transposição muito bem, deixando os produtores preocupados: era um filme muito sério, muito pesado e não transmitia nenhum sentimento de esperança. Exigem algumas mudanças, como modificações no roteiro, mexem no final, trocam algumas cenas, mas o principal foi terem chamado o ator principal para fazer uma narração do filme. Foi esta versão que acabou sendo levada e se tornando um cult-movie consagrado. Alguns anos atrás, o diretor conseguiu retomar a sua versão original e agora estas duas variantes estão à disposição para podermos comparar. Os produtores sabiam o que estavam fazendo: o impacto das cenas, o poder angustiante das imagens são consideravelmente mitigadas, “adocicadas”, desvirtuadas, em suma, por conta da narração, pela ação da Palavra.
 
(passando por cima de centenas de milhares de considerações intermediárias) O cinema europeu vai por uma vertente exatamente oposta. Preocupados em realizar uma proposta de trabalho que se oponha à infantilização e a extrema simplificação do exemplo norte-americano, começam a surgir vários movimentos cinematográficos entre o final da Segunda Guerra Mundial até os começos da década de setenta. Quem está simplificando agora sou eu, mas havia duas características básicas destes movimentos, tais como a Nouvelle Vague francesa, o Neo-Realismo italiano, o Cinema Novo brasileiro: o projeto de um trabalho que fosse único e pessoal, refletindo diretamente as idéias do Autor do filme (em contraposição ao cinema industrial, de massas e impessoal); e o uso extremamente original da Palavra.
 
Nestes casos, a Palavra não funciona nem como reveladora de alguma Verdade extemporânea e absoluta, nem como redutora desta mesma. De fato, apesar de em boa parte desses filmes sejamos invadidos por uma avalanche de contínua falação (vide algumas obras do francês Jean-Luc Godard, como “ACOSSADO”), ela não conduz nem guia ninguém. Na maioria das vezes, ela é chata, incomoda, atrapalha, atravanca. A relação com a imagem se torna conflituosa, contraditória, antagônica. Em “O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS”, Pasolini coloca várias cenas com Jesus estático, parado, declamando as palavras em tom monótono. A sensação é de uma estranheza absoluta. ?Mas a Palavra (nesse caso, em todo o seu sentido bíblico) não é sagrada e, portanto, auto-suficiente? Em TERRA EM TRANSE, Glauber Rocha faz seus personagens cantarem trechos de ópera no meio de uma cena, sem nenhuma relação com a história.
 
Tudo isso fazia parte de uma busca, uma procura por formas diferenciadas e instigantes de tratar com a imagem, de fazer Cinema. Chegaram a um tal extremo de experimentação que, mais do que um Cinema alternativo, chegaram aos limites do anti-Cinema. Estou citando o caso específico de Godard, que continua nessa “experimentação” até hoje.
 
Lavouras
 
Essa foi uma introdução um tanto longa, mas indispensável para discutirmos o filme de Luiz Fernando Carvalho. Porque o que se trata aqui é justamente da relação da Palavra com a Imagem para tentar realizar um produto simbiótico que é Cinema. O que se trata é de uma adaptação de uma obra de Raduan Nassar, caudalosamente verborrágica, sufocantemente intimista, quase absolutamente não-linear. A história não interessa tanto; os fatos são como que arrancados a cada nova torrente de palavras do personagem-narrador André, as lembranças vêm como flash-backs absolutizantes (que se fecham em si mesmas) até que, aos trancos e barrancos, ficamos sabendo que possuem como referência a relação incestuosa com a irmã.
 
Tudo gira em torno disso: o arrependimento, a desestruturação da família, as memórias amargas (mesmo quando felizes, as memórias só reforçam o quanto essa sua antiga felicidade será destruída), a fuga de casa, o resgate pelo irmão. As referências bíblicas são óbvias, não somente pela adaptação de uma parábola cristã, mas principalmente pela utilização da Palavra com todo o seu poder de Verdade. É encarada assim pelo Patriarca que se senta à mesa e obriga a família a ouvir seus sermões. Também é vista dessa forma pela família que ouve e condiciona sua vida àquelas histórias. E é também assim combatida pelo filho rebelde que se desespera ao perceber que essa “verdade” não explica seus desejos inconfessáveis nem os conforta ou perdoa quando estes afinal são realizados.
 
Pois bem, o diretor transpõe para o filme quase que o texto inteiro do livro, literalmente. As cenas são longas, as “conversas” são extensos monólogos entremeados de algumas frases de ligação, a maioria são os pensamentos do personagem ruminando sobre episódios vários, o que torna o filme longo, lento e contemplativo. As citações são textuais e, muitas vezes, correm o risco de serem consideradas redundantes, desnecessárias, pois o que está sendo dito também está sendo, em sua maioria, mostrado. Logo após André dizer que costumava mexer na roupa suja da família e que, dessa forma, a conhecia melhor do que qualquer outro, segue-se uma cena, muda, mostrando as mãos desdobrando lentamente as peças de roupa no cesto. 
 
Pode-se gostar ou não do resultado (entrando assim no nebuloso terreno do gosto pessoal), discordar ou não da opção radical do diretor. O que gostaria de discutir é que Lavoura Arcaica não poderia ter sido filmado de outra forma sem que, ao mesmo tempo, traísse a espinha dorsal da idéia do filme. Luiz Fernando transmuda a Palavra em Imagem, transforma a narração falada em ação visual, a torrente de pensamentos abstratos em cenas concretas, o impacto do raciocínio abstrato no choque dos fotogramas. Em suma, faz Cinema.
 
Pode até parecer incrível dizer isso de um filme com tanta falação, mas em LAVOURA a Imagem é absoluta. É ela quem comanda. Ela transforma, critica, se contrapõe, relativiza o poder da Palavra.. Esta tem a pretensão de ser a portadora da Verdade, através da sua verborragia, de sua posição autoritária, de sua pretensa capacidade democrática de diálogo, mas é contrastada o tempo todo pelo fogo revelador das imagens. A Palavra é confusa, rasa, inibidora, moralista. Insuficiente.
 
A imagem amplia a dimensão conceitual. É impressionantemente importante as roupas sujas serem mostradas logo após serem citadas pelo personagem. Não é uma ilustração, um simples adereço e, portanto, uma redundância fútil mesmo que bonita. O que estamos observando é a transformação da Palavra em Imagem, onde ela é confirmada (sim, ele está falando a verdade) e rapidamente ultrapassada e completada (a cena continua, com detalhes que não foram expressos por André; o detalhe do espelho não é citado por ele). 
 
No livro, o personagem lembra uma parábola narrada pelo patriarca e passa a narração para o pai. Se a cena mostrasse o ator narrando a história, o recado já teria sido dado. O diretor mostra mais, representa a própria história que está sendo contada, o que também poderia ser facilmente considerado como mais uma redundância. Mas temos que lembrar que a cena é, na verdade, uma narração do pai que na verdade é uma narração do André que está tentando expressar suas opiniões a respeito daquelas histórias bestas. Para transmitir toda essa gama de emoções e sentimentos e histórias paralelas, o diretor mostra a cena com os mesmos atores como que  representando a si mesmos em outro contexto. Sem mudar em nada do texto, do que está sendo falado, o diretor torna ainda mais significantes todas as palavras que estão sendo (ou não) ditas. A cena também comprova o virtuosismo narrativo de Luís Fernando, pois todos os personagens falam suas próprias falas, independente de quem estiver dirigindo a narração no momento. Ninguém diz as falas de outro e isso serve tanto para o patriarca quanto para o filho, tanto para o sultão quanto para o mendigo. 
 
O contraste mais forte, mais significativo e que proporciona uma das cenas mais belas do filme são as falas da irmã de André. Em nenhum momento do filme, Ana diz uma única palavra. É um movimento de contestação tão ou até mais forte do que o de André ao pretenso poder da palavra do pai. Ela se torna então como uma espécie de puro sentimento, de pura emoção, de paixão primária e selvagem, sem racionalizações. 
 
E ao desespero verborrágico existencialista de André na capela, ao insistir que ela responda alguma coisa, que afinal de contas ela Fale, ela contrapõe somente o rosto lacrimoso, também desesperado, mas absolutamente mudo. 
 
Assim, neste momento, a Imagem toma conta do universo.  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A grande arte da luz e da sombra - Arqueologia do Cinema
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 23 de Agosto de 2010 03:23

 

Apesar de ser tão jovem, acabou de completar pouco mais de cem anos de idade, a arte cinematográfica possui uma considerável quantidade de estudos historiográficos, biográficos, analíticos e até filosóficos. Apesar disso, considerada a arte do século XX mesmo que muitas vezes cotada a desaparecer principalmente por conta do aparecimento da televisão, ela abre o século XXI com toda a pujança e força de uma adolescente feroz. Este enorme número de materiais de estudo acaba nos levando a alguns perigos: primeiro, a de nos conduzir a um falso sentimento de conhecimento e tranqüilidade; é como se já soubéssemos tudo o que pudesse ser sabido. Por outro lado, faz-nos desconsiderar alguns temas considerados “marginais”, “sem muita importância”.
 
Exemplo claro dessa ambivalência é o nosso posicionamento geral perante os primeiros passos do cinema. É comum considerar o cinema mudo e preto-e-branco (os charles-chaplins e harold-loyds da vida) como os antecessores imediatos, e infantis, do “verdadeiro” cinema, sério, bem construído e estruturado. Esta é uma falácia comum que ultimamente está sendo destruída passo-a-passo. É até chocante perceber o quanto este cinema “infantil” não tem, na verdade, nada de primário e que muito da arquitetura dramática de todo o cinema atual já existia desde o começo, totalmente estruturada e conscientemente utilizada.
 
O que dizer então da Pré-História do Cinema? Aliás, qual é mesmo o sentido desta frase? Vejamos: a base da existência do Cinema é a Fotografia, não é mesmo? Se o Cinema em si é uma ilusão de ótica provocada pela rápida sucessão de fotografias fixas, sua “pré-história” seria o desenvolvimento da própria arte fotográfica, certo? Pois é... Não! A Fotografia é um dos fatores fundamentais, sem dúvida, mas não é o único.
 
O que Laurent Mannoni faz em A GRANDE ARTE DA LUZ E DA SOMBRA - ARQUEOLOGIA DO CINEMA (Unesp / Senac) é descortinar um imenso universo de uma história fantástica ao resgatar a história dos homens preocupados em construir aparelhos que projetem imagens. Em movimento. É uma relação impressionante de aparelhos, experimentações, pesquisas. É uma história empolgante e fascinante, narrada com uma simplicidade e fervor que atiçam ainda mais a leitura. 
 
Essa preocupação pela projeção da imagem é muito antiga, vai alem do final do século XIX, passa do XVIII. Mannoni começa sua história ali pelo século XIII! Mais: se formos sérios podemos regredir até à Antiguidade... Afinal, o princípio da Câmara Escura é conhecido por Aristóteles. 
 
CAMARA ESCURA. Lição de Física Básica Escolar. ÓTICA: 
 
Tome-se um ambiente completamente vedado à luz, uma sala ou uma caixa. Faça-se um pequeno orifício em algum ponto do ambiente. No lado ou parede opostos ao do orifício, ficará refletida a imagem do ambiente exterior. Se a parede estiver coberta com um material apropriado, tela branca por exemplo, a imagem ficará mais nítida. Este simples experimento ainda hoje impressiona, imagine-se então para um Aristóteles. Com um agravante, um detalhe que fez muito cientista perder o sono pelos séculos afora: a imagem refletida estará de ponta-cabeça e invertida, isto é, da esquerda para a direita e vice-versa. Fenômeno curioso mas facilmente explicável pela Ótica atual.
 
Lembremos que a imagem não está, por natureza, fixa e sem movimento. Se o ambiente fechado for uma sala e o ambiente externo for uma rua, a imagem captará toda a movimentação. 
 
Isso leva diretamente a duas preocupações: por um lado, a da fixação desta imagem; e por outro, um problema óbvio, o da luz, já que não é sempre que existe luz natural do Sol. Por exemplo: à noite! Uma vela então é um bom substituto, mas muito provisório. Uma lanterna, lampiões, são bem melhores, mas precisam ser bem construídos para que não pegue fogo na caixa, na tela ou no próprio projetista. Jogos de espelhos e vidros, com lentes invertidas, ajudam ainda mais. Com uma projeção familiar, tosca e simples, e ao mesmo tempo tão eficiente leva-se à questão de O Quê ser projetado: um desenho pintado em um vidro transparente, amplia as possibilidades ad infinitum. Será uma imagem parada, mas há um truque muito simples e prático: mexa a vela ou o lampião de um lado para o outro! Ou então faça vários orifícios e aí então mexa na vela. 
 
Veja-se bem: estamos falando dos séculos entre o XIII e o XIX, onde a Câmara Escura, ricamente trabalhada, pesquisada, renomeada como Lanterna Mágica é um sucesso popular absoluto. E se tudo isso parece á primeira vista muito bobo, então é porque o leitor nunca foi a um circo ou um parque de diversões e assistiu a um show de transformações da Monga, a mulher-macaco. Os lanternistas, os mascates com um caixa de lanterna-mágica nas costas que percorriam a Europa com suas projeções populares e “miraculosas”, só desapareceram completamente nos primeiros anos do Século XX! 
 
Minuciosa, detalhada e pacientemente, Mannoni nos revela todos os detalhes, todos os passos, todos os percalços, máquina por máquina, experimento por experimento, pesquisador por pesquisador, cientista por cientista. 
 
Este lado da projeção e da iluminação é um viés. Outra vereda histórica é o da fixação da imagem. Que se liga, embora não seja uma relação direta, a uma pequena característica do organismo humano, especificamente o da retina, conhecida como “persistência retiniana” ou “persistência da visão”. Todos sabemos o que é isso. Se olharmos fixamente para a luz de uma vela ou  lâmpada, continuaremos “enxergando” um pequeno ponto luminoso, mesmo que fechemos o olho. O grande físico Isaac Newton foi um dos pioneiros na explicação deste fenômeno. Ele olhava para o Sol e anotava quanto tempo a iluminação permanecia em sua vista. Obviamente, quase ficou cego: durante meses, não conseguiu se livrar de um círculo negro que embaçava seus olhos. 
 
A retina retém por um certo tempo a imagem de um objeto. Se substituirmos rapidamente esta imagem por uma outra parecida, mas com uma certa posição diferente e mais outra imagem e outra... voilá! A impressão que teremos é que estas imagens (que sabemos serem fixas) darão a ilusão de estarem se mexendo. Portanto, se juntarmos este principio da persistência retiniana, com o desenvolvimento da fotografia ou o daguerreotopia, em uma sala escura e com uma iluminação apropriada... teremos o Cinema, certo?
 
Ainda não. Resta o grande problema de fazer com que estas fotografias se sucedam de uma forma harmônica para que a ilusão seja perfeita. É necessário um aparelho que a) pegue a foto (ou o desenho), b) coloque-a devidamente no foco de luz, c) substitua-a no tempo exato para que a imagem não se perca ou seja “esquecida e d) tudo isso precisa ser manobrado do modo mais eficiente para que tudo não fique embolada,a fita não se quebre, a lâmpada não se apague ou provoque uma explosão e taque fogo na sala, na máquina, no projetista, etc e tal. 
 
Uma grande sacada foi fazer pequenos furos nas margens das fotos, coloca-las em um mecanismo de roldanas com varetas que penetram nos furos, puxando-as e movimentando-as, com um motor que imprime um ritmo regular. 
 
Mannoni descreve cada um destes aparelhos, sua sucessão e seu desenvolvimento: o coreutoscópio giratório, o estereoscópio, o bioscópio, o fantascópio, o fotobioscópio, passando pelas fantasmagorias e os polioramas, a fundamental zoopraxografia, a cronofotografia, o fonoscópio, o praxinoscópio, desembocando no quinetoscópio e no quinetógrafo. Isso só para citar alguns dos mais importantes. 
 
Pois bem, com o quinetoscópio de Thomas Edison temos que quase praticamente os filmes tais quais como os conhecemos hoje em dia. Este aparelho era uma caixa individual com um visor onde cada pessoa mediante o pagamento do ingresso aproximava o rosto e via uma sucessão de imagens, às vezes até com um certo enredo.
 
Filmes, sim. Cinema...? Ainda não. Isto se concretiza de verdade quando em 1895, dois irmãos, os Lumiere (que nome magnífico para tais pessoas!, impossível ser mais apropriado), promovem com o seu cinematógrafo uma sessão aberta para várias pessoas ao mesmo tempo, em uma mesma sala, em uma mesma tela, onde todos sentem o impacto da imagem-que-se-mexe. 
 
A emoção, a paixão, e o amor que Laurent Mannoni consegue passar para sua narrativa é o ingrediente indispensável para que o seu livro não seja uma simples sucessão de relatórios de maquinas de nomes exóticos. Lemos “A Grande Arte da Luz e da Sombra” como um verdadeiro romance de suspense, palpitante, misterioso e instigante. A bela edição das editoras Senac e Unesp respeita a farta iconografia original: o livro é recheado de desenhos, fotos e ilustrações. Nada menos que o necessário para tal obra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tonight Is What It Means to Be Young
Escrito por Claudinei Vieira   
Dom, 22 de Agosto de 2010 20:03
 
 
 
 
I've got a dream 'bout an angel on the beach
and the perfect waves are starting to come
his hair is flying out in ribbons of gold
and his touch has got the power to stun
I've got a dream 'bout an angel in the forest
enchanted by the edge of a lake
his body's flowing in the jewels alive
and the earth below is starting to shake
 
but I don't see any angels in the city
I don't hear any holy choirs sing
and if I can't get an angel
I can still get a boy
and a boy'd be the next best thing
the next best thing to an angel
a boy'd be the next best thing
 
I've got a dream 'bout a boy in a castle
and he's dancing like a cat on the stairs
he's got the fire of a prince in his eyes
and the thunder of a drum in his ears
I've got a dream 'bout a boy on a star
lookin' down upon the rim of the world
he's there all alone and dreamin' of someone like me
I'm not an angel but at least I'm a girl
 
I've got a dream when the darkness is over
we'll be lyin' in the rays of the sun
but it's only a dream and tonight is for real
you'll never know what it means
but you'll know how it feels
it's give me be over (over)
before you know it's begun
(before you know it's begun)
it's all we really got tonight
stop your cryin' hold on (tonight)
before you know it it's gone (tonight)
tonight is what it means to be young
tonight is what it means to be young
 
let the rebels begin
let the fire be started
we're dancing for the restless and the broken-hearted
let the rebels begin
let the fire be started
we're dancing for the desperate and the broken-hearted
let the rebels begin
let the fire be started ...(tonight is what it means to beyoung...)
we're dancing for the restless and the broken-hearted...(beforeyou know it it's gone...)
let the rebels begin
let the fire be started...(tonight is what it means to beyoung...)
we're dancing for the desperate and the broken-hearted...(beforeyou know it it's gone...)
say a prayer in the darkness for the magic to come
no matter what it seams
tonight is what it means to be young
 
I've got a dream when the darkness is over
we'll be lyin' in the rays of the sun
but it's only a dream and tonight is for real
you'll never know what it means
but you'll know how it feels
it's give me be over (over)
before you know it's begun (before you know it's begun)
it's all we really got tonight
stop your cryin' hold on (tonight)
before you know it's gone (tonight)
tonight is what it means to be young
tonight is what it means to be young...
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
ORBE na Livraria da Esquina
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 20 de Agosto de 2010 09:47

 NullBits

música eletrônica feita e tocada

com videogames e computadores
vintage
Não conheço as demais bandas. Sei do Orbe.
Sei do que é capaz. Sei que vale a noite.

Livraria da Esquina Tel: (11) 3392-3089. RUA DO BOSQUE, 1254 (Barra Funda)
R$ 10
 
   
ORBE - GRAVIDADE
performance com Meninas João 
Jundiaí - SP em 14/08/2010 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mr. Natural: Mr. Robert Crumb
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 05 de Agosto de 2010 04:52

 

Investigar a vida de Mr. Natural é um empreendimento espinhoso, quase não há fatos que sejam devidamente documentados e o próprio não gosta de falar de si mesmo. Um dos dados mais antigos é de quando trabalhou vendendo um remédio milagroso sob o nome de Dr. Von Natürlich, por todo o Meio-Oeste até ser preso por fraude em Peoria, Illinois. Os registros policiais dizem que o tal ‘elixir milagroso’ nada mais era do que água comum de torneira.
 
Quando libertado, adotou o nome de Mr. Natural, O Magnífico, em apresentações como mágico, ilusionista e hipnotizador. Carreira curtíssima, que antecedeu uma brusca guinada em sua vida, quando se tornou band-leader de uma banda de baile que começou como “Mr. Natural and His Seven Lyrical Lechers” e que com o aumento de integrantes chegou a ter treze músicos, mudando para “Mr. Natural´s Lyrical Lechers and Their Orchestra”, que fez muito sucesso, e em dois anos tornou Mr. Natural milionário, com mansão, carros com chofer, mordomo e outras mumunhas. Estava no auge, quando abandonou a banda, abandonou seus companheiros, doou tudo que tinha para o primeiro mendigo que encontrou na rua e foi-se embora, em uma atitude que atordoou todo mundo (eles, obviamente, não conseguiam acompanhar o pensamento daquele ser perfeito).
 
Diz-se que teria andando pelo mundo inteiro, Índia, Tibet, Himalaia, China, Afeganistão (onde teria trabalhado como motorista de táxi). A década de 50, quando voltou para os Estados Unidos, foi um período de introspecção e meditação no Death Valley para repensar e recomeçar sua vida. Logo após, começou a dar palestras, participar em convenções, formar sua turminha. Foi a partir da década de 60 que começaram a surgir os fãs-clubes em sua homenagem que cuidavam de escutar seus ensinamentos morais e filosóficos e tomavam conta de suas necessidades financeiras, e na segunda metade da década, “ele já era reconhecido como uma força espiritual poderosa no planeta, um grande líder religioso e um modelo vivo da perfeição de Deus para que toda a humanidade possa se espelhar. Suas tocantes palavras de sabedoria já foram traduzidas para o alemão, francês, espanhol, italiano, norueguês, holandês, japonês e sua presença neste globo o deixaram melhor, como todos sabemos!!”, nas palavras do seu 'biógrafo', Robert Crumb.
 
Um ser perfeito que transita pelas ruas de Chicago levando sabedoria? O maior guru de todos os tempos, séculos e milênios, último representante dos budas, cristos e congêneres na face na Terra? Ou um charlatão-mor, que se aproveita da incredulidade dos babacas para arrancar seu dinheiro e, volta e meia, traça uma “seguidora” devota mais gostosa? No mínimo, Mr. Natural é um dos velhinhos mais carismáticos e menos convencionais e desencanados que já existiu, com certeza!
 
“Mr. Natural” traz toda a acidez e anti-convencionalismo dos polêmicos quadrinhos de Robert Crumb, com toda a sua força. Crítica social, política, sexual. Underground puro direto na veia, nos traços que definiram a cultura moderna e que derrubam toda a hipocrisia, jogos de poder, e falsos moralismos que caracterizam (e sempre caracterizaram) a sociedade norte-americana. Se Mr. Natural é desencanado e encontrou sua verdadeira ‘paz interior’ é para melhor contrastar com a infinidade de seres complexados, perdidos e inferiorizados que o cercam, tão bem representados pelo seu mais ardoroso seguidor, o idiota e complacente Flakey Foont. 
 
Crumb sacode as consciências, dá um banho de inteligência crítica. Mr. Crumb, o papa do underground, o verdadeiro guru moderno.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Balzac e sua Mulher de Trinta Anos
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 05 de Agosto de 2010 04:08
 

O ego de Honoré de Balzac era enorme e suas pretensões também. Começando pelo próprio nome: o "de" indica nobreza e foi colocado por ele mesmo. Filho de família modesta, no interior da França, era uma posição a qual nunca teve direito e nunca conseguiu alcança-la apesar de todos os seus esforços, mas nunca renunciou ao "de".
 
Era teimoso, também, de convicções obstinadas. Desde cedo, decidiu que seria um escritor tão poderoso escritor e faria tanto sucesso que tomaria a França da mesma forma como Napoleão. A única diferença seria pelas armas utilizadas: Napoleão, pelo exército; Balzac, pela pena. 
 
Sua família ficou perplexa. Não era para menos: ele nunca havia se destacado na escola, nunca escrevera algo reconhecido, seus maiores estudos tinham se limitado ao Direito, a qual lhe daria um trabalho decente e uma boa remuneração. Do que precisava mais? Fizeram um acordo: durante um ano, lhe mandariam uma mesada para sobreviver em Paris para escrever. Pelo resultado, decidiriam se ele realmente tinha razão. Este resultado foi uma peça, uma tragédia histórica chamada "Cromwell". Não existem resquícios desse texto. Foi rasgada e esquecida. Foi um fracasso para todos que a leram e convenceu sua família de que ele deveria desistir de uma vez com essa loucura. 
 
Balzac reconheceu a derrota nesta batalha. Percebeu que o teatro não fora sua melhor escolha e ainda precisava se aperfeiçoar muito para chegar ao nível de excelência que almejava. Continuou em Paris, agora sem a ajuda paterna, e para se manter começou a escrever novelas fantásticas para jornais. Era uma subliteratura, descartável e esquecível; serviu somente para que Balzac construísse uma disciplina própria, treinasse a escrita e não morresse de fome. Para não se manchar com esses escritos, assinou com vários pseudônimos. Mesmo nessa época, algumas características do futuro clássico já estavam presentes: um ritmo de trabalho alucinado, verdadeira produção industrial, e uma imaginação fértil. 
 
Quando sentiu que estava pronto, abandonou essa subliteratura, começou a assinar com seu próprio nome. E não parou mais de escrever clássicos. 
 
A diferença destas duas fases é estonteante. De um lado, um escrevinhador que vomitava textos ínfimos, de uma nulidade absoluta, puramente por dinheiro. Do outro, um autor com uma densidade e uma pureza artística que nunca foi maculada pela sua aspiração à nobreza, por reconhecimento ou dinheiro. A ascensão do "novo" Balzac foi fulminante. Está certo que no começo foi devido ao escândalo: ele conseguia causar sensação. Seu primeiro livro "sério" ("Chouans") era uma tentativa de imitação do grande sucesso editorial da época, Walter Scott e o seguinte, "Fisiologia do Casamento" primava pelo cinismo, a sátira pesada e a discussão de temas tabus. No entanto, nada que lembre sua antiga produção. Mesmo que estes livros não tenham a mesma qualidade de obras posteriores, até hoje possuem uma frescura e uma densidade ímpar. Sua tentativa de imitação de Scott não deu certo simplesmente porque Balzac já possuía uma identidade e uma escrita própria e personalista que não foi mais abandonada e cujo correr do tempo só fez aumentar e destacar a importância.
 
O ritmo, a dedicação e a seriedade para com sua literatura eram impressionantes. Escrevia e reescrevia vários rascunhos. Oito, nove, dez, doze vezes. O livro inteiro. Seu desespero pelo melhor fazia com que paralisasse as máquinas de impressão enquanto o livro estava sendo impresso. Isso para a primeira edição. Toda reedição merecia ser reescrita outras duas, três, cinco, dez vezes.  Se pensarmos que, quando Balzac morreu, deixou uma obra que abrangia 95 romances, fora as peças de teatro, ensaios e artigos de jornal e lembrarmos que para todos eles o tratamento era o mesmo, podemos ficar espantados com toda a justeza. E ainda precisamos lembrar que ele possuía uma imensa atividade social, teve várias amantes, tentou carreira política, viajou por vários países ... A racionalidade é pouca para entender tal gênio. 
 
Ele conseguiu o seu intento. Tomou a França e a conquistou. Montou um painel desta sociedade que estonteia pela amplidão. Em um determinado momento, percebeu que estava, na prática, refletindo a realidade de todo um momento histórico. Mais do que um romancista, decidiu ser um Historiador, um Cientista Social. Todos os seus livros fariam parte de uma mesma e única obra. Haveria um fluxo de personagens de um livro para o outro, uma hora mostrando sua velhice, outra hora o início de sua vida e carreira. Seria a França em sua totalidade, com todas as suas idiossincrasias, seus tipos particulares, sua História, Economia, ambições, maldades, etc. Já estava superando Napoleão; superaria agora o próprio Registro Civil. 
 
Esta obra é a Comédia Humana, constituída por dezessete volumes, mais de oitenta obras entre romances e contos. Personagens que cativam e marcam nossa memória: o jovem estudante Rastignac que deixa de lado seus escrúpulos morais para ascender socialmente (que serviu, mais tarde, como modelo para Dostoievski criar o seu Raskólhnikov, em "Crime e Castigo"); o grande Papai Goriot que sacrifica sua vida pela felicidade das filhas; o judeu Gobsek; a infeliz menina Pierrete e etc, etc. Não cabem nesta resenha. Entre tantos estudos sobre a vida e obra de Balzac, existe um dicionário somente para os personagens da Comédia Humana. 
 
“A Mulher de Trinta Anos”. Esta é, sem dúvida, sua obra mais famosa. Impregnou tanto o imaginário ocidental que muitas pessoas que nunca sequer ouviram falar do escritor francês e nem tem idéia de sua procedência, conhecem a expressão "mulher balzaquiana". O choque provocado em sua primeira publicação foi bem considerável. Pela primeira vez, um escritor valorizava os pensamentos e desejos de mulheres maduras, prestava atenção em suas angústias, reinvidicava o direito delas serem felizes, bonitas e sensuais e discutia de maneira franca e objetiva os problemas íntimos de casamentos fracassados. Foi um sucesso mesclado com escândalo e comoção social, cujos reflexos chegam até os dias de hoje.
 
No entanto, literariamente, "A Mulher de Trinta Anos" é uma de suas obras mais fracas, com péssimo desenvolvimento narrativo, personagens frágeis cujas personalidades se contradizem em várias cenas, uma escrita frouxa e mal acabada. Quem começar a conhecer Balzac através deste livro por causa de sua fama, provavelmente se decepcionará e não terá uma idéia precisa do brilho do restante de sua obra.
 
Na verdade, o livro é a junção de vários contos independentes e escritos em separado que sofreram algumas modificações mínimas, como a troca dos nomes dos personagens, por exemplo, no esforço para constituir um romance único que coubesse dentro da saga maior da “Comédia Humana”. Por isso, momentos brilhantes alternam com outros, baixos, quase constrangedores e personagens agem em contraste absoluto com atitudes anteriores. Sem dúvida, Balzac apararia estas arestas e as ligações ficariam melhor combinadas, mas morreu com apenas 51 anos, completamente esgotado, e com a arquitetura de sua "Comédia", incompleta. 

Muito melhor é conhecer Balzac pelo seus picos: "Ilusões Perdidas". Ou "Eugenie Grandet". Ou "Pai Goriot". Ou até mesmo outros não tão conhecidos (injustamente), muito melhores (muito melhores!) do que "A Mulher de Trinta Anos", como "Gobsek", "Pierrete", "Coronel Chabert", "A Prima Bete", "A Casa Nucingen"... Alternativas realmente não faltam. 

 

 

 

 

 

 
A busca do prato perfeito de Anthony Bourdain
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 05 de Agosto de 2010 03:10

 

Existiria algo chamado "o prato perfeito"? De uma certa forma, sim. Mas, como coloca Anthony Bourdain ("Em busca do prato perfeito", Companhia das Letras) não é exatamente o que comumente pensamos. Quando consideramos a expressão, geralmente se pensa em alguma coisa do tipo "mesa das mil e uma noites" : comidas exóticas e muito, muito caras, servidas em restaurantes mais caros ainda. Quando se junta outra expressão, "comida francesa", a situação é mais esquisita ainda, pois além do preço parece que a refeição tem que ser minúscula e vem servida em pratos microscópicos adornados com uma folhinha verde que serve como decoração (ou complemento para a alimentação...). Bourdain nos ensina, antes de mais nada, que isso é muito relativo, depende de inúmeros fatores, que vão além da tecnica apurada e dos ingredientes caros.
 
Por certo, o grau de fome que a pessoa sinta é um enorme fator, mas outros contribuem, como o clima psicológico onde a comida é preparada, a cultura envolvida, o exato momento onde a refeição ocorre. Na verdade, pode-se dizer que a melhor refeição raramente é sofisticada ou cara. Digamos, por exemplo, que você esteja "comendo um simples churrasco debaixo de uma palmeira; com areia nos dedos dos pés, samba tocando baixinho ao fundo, as ondas lambendo delicadamente a praia, logo ali; uma brisa fresca ameniza o suor no seu pescoço e olhando para o outro lado da mesa, através do monte de cervejas jamaicanas Red Stripes vazias, você vê a expressão sonhadora no rosto de sua companhia e percebe que no máximo em meia hora estará fazendo sexo sobre  brancos lençóis limpinhos de hotel, e então aquela coxa de frango grelhada ganha um sabor incrível."
 
Um outro dado fundamental nesta questão é o fato demonstrado na histórias das melhores culinárias mundias: o extremo pragmatismo da necessidade da alimentação. Isto é, os povos foram obrigados a interagir e trabalhar imaginativamente com os alimentos que lhe eram disponíveis e conforme a maior ou pior penúria pelos quais passavam tinham que inventar soluções para aproveitar todas as qualidades possíveis e imagináveis. A melhor cozinha do mundo, justamente a francesa, é resultado de intensas pesquisas ao longo dos séculos e que, ao lado de sua reconhecida sovinice, a fez perceber as inúmeras possibilidades de qualquer parte de qualquer tipo de alimento. Isto é uma coisa que o norte-americano médio não consegue compreender: para ele, só o filé-mignon, a alcatra e o contrafilé são carne; o resto é material para hamburguer. Enquanto que os franceses "espertos e pães-duros batalharam anos e anos para descobrir como tudo o que aparecia, nadava, pulava, se dependurava, tudo o que crescia do solo, brotava no muro, surgia no vinhedo ou sob o esterco podia ser transformado em algo comestível, agradável, até mesmo mágico."
 
Um exemplo perfeito do aproveitamento das adversidades para chegar ao ponto de uma comida refinada é a nossa brasileiríssima feijoada, prato muito apreciado pelo chef Anthony Bourdain e que tem tudo a ver com as suas idéias.
 
Ora, se o encontro da comida perfeita é uma quimera, uma viagem ao redor do mundo tentando encontra-la pode ser, no entanto, muita divertida. Principalmente para o autor. Isso significaria, entre outras coisas, sair dos guias turísticos e das cozinhas padronizadas. A idéia era se embrenhar nas florestas, nos povoados antigos, experimentar de tudo, conhecer todos, comer de tudo um pouco, mesmo se aquilo parecesse um tanto ou quanto "exótico" ou diferente. Encontrar a verdadeira junção entre povo, cultura, momento e alimentaçào... podia render um bom livro e podia fazer tanto sucesso quanto o seu primeiro bestseller, o "Cozinha Confidencial". O editor adorou a idéia. Uma rede de televisão também adorou e propôs fazer um programa registrando estas experiências. Então, além de chef reconhecido mundialmente e escritor bestseller, Bourdain virou apresentador de televisão. É lógico que, mais do que ninguém, ele adorou que todos tivessem gostado. 
 
Assim, "Em busca do prato perfeito" é o registro de uma das mais divertidas viagens ao redor do mundo, repleto de comentários maliciosos, histórias e "causos", seguindo a mesma linha leve, humorística e informativa do "Cozinha Confidencial". Ficamos conhecendo pratos de uma França desconhecida, ou de uma "Espanha" basca, onde a comida era servida junto com hinos revolucionários ou de uma Rússia pós-soviética onde a quantidade de vodca tomada era quase tão importante como a própria comida. Aliás, a bebida foi parte integrante desta jornada, tanto na vodca citada ou no wisky vietnamita falsificado para acompanhar um pato assado no barro ou no saquê nas tranquilas pousadas japonesas e Bourdain nunca se fez de rogado, tanto para comer quanto para beber.
 
Os resultados foram refeições que atingiam o máximo do prazer sensorial que um ser humano pode alcançar, embora algumas experiências o fizessem se arrepender de ter inventado aquilo (muito embora ele já tivesse ouvido e levasse em conta a advertência de sua mulher: "Se eu souber que você andou provando miolos de macaquinhos simpáticos e ainda vivos, é o divórcio!"). Pedir a "especialidade da casa", por exemplo, pode significar ter que comer um coração de cobra que ainda estava viva há dois segundos antes e foi estripada na sua frente. Com todos ao seu redor esperando para ver se será comido corretamente. Isto é, ainda pulsante. Ou, então, comer um iguana, uma espécie de lagarto gigante, mal-passado. Nestes momentos, nós simples leitores que, durante a maior parte do livro ficamos babando, com a boca cheia d'água e morrendo de inveja do Anthony, podemos até ficar contentes de continuarmos sendo reles leitores. 
 
O "prato perfeito" não existe. É uma abstração, assim como a "felicidade", o próprio autor conclui. Mas, sua busca pode ser extremamente prazerosa. E isso é o que vale. Pode-se degustar, portanto, "Em busca do prato perfeito" como uma verdadeira iguaria literária.
 
 
 
 
 
 
 
Figuras de gelo
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 24 de Junho de 2010 07:19

 

 

Elas aparecem em momentos e lugares estratégicos. São urbanas. Contrastam com o ambiente veloz, afobado, e caótico ao redor e obrigam o observador (em geral, tão célere e inatento) a parar e olhar. A respirar. Sua aparência frágil e sua existência volátil, ínfima, diminuta, tal qual sua estatura, escondem uma força impressionante, pois não desgrudam mais de sua mente. Sua presença é firme, permanente. 

E quando de tudo o que sobra são poças de água (que logo também evaporarão), a lembrança faz com que o ex-mero expectador se sinta perguntando sobre sua própria e volátil fugacidade. 

A idéia é espantosamente simples (embora imagine que sua execução e instalação não sejam tão simples assim...), mas de uma sacada e beleza indescritíveis que somente uma artista espantosa, em um instante privilegiado poderia conceber. Em mim causam uma sensação de emoção absurda e não canso de contemplar essas imagens, desde que conheci esse trabalho em um post do blog da poeta Ana Rüsche.

Néle Azevedo é a artista. Tem espalhado suas figuras em capitais do mundo todo e causado impacto em todos os lugares por onde esteve, nas escadarias do Teatro Municipal e na Praça da Sé, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Japão, Itália, Alemanha. 

Em minha busca por imagens pela net, me deparei com a notícia de que a instalação ('instalação' ou 'exposição'? não sei como a artista chama estes momentos breves de aparecimento ao público de suas figuras) na Alemanha teve contornos de protesto contra o aquecimento global.

Fiquei triste e decepcionado com essa visão. Atrelar a existência dessas estranhas e enigmáticas figuras a um pensamento e atitudes tão restritos me parece de um simplismo e reducionismo bobos, contrários inclusive à própria concepção interna desse trabalho. Ao invés de alargar e instigar, de movimentar a inteligência e a emoção, só diminui, conduz, apequena. Uma pena.

Logo depois, imediatemente depois (ainda bem), encontrei uma reportagem me esclarecendo que essa visão veio de grupos ecológicos alemães que traduziram assim, ao seu modo, sua própria explicação para as figuras de gelo. Nele até concorda que essa relação possa ser feita e fica contente que seu trabalho proporcione essa oportunidade de melhorar o planeta. Mas, o mais importante (pelo menos, para mim) é que não foi ela quem estabeleceu essa relação entre as figuras e o aquecimento global. Meu alívio foi tremendo. Nesse caso, tudo bem: cada um é livre para interpretar  e encontrar suas próprias conclusões, mesmo que não compartilhe de suas opiniões ou até mesmo considere que sejam infantis, precárias e diminuitivas. 

Gostei muito de um texto da Néle Azevedo (em um arquivo pdf facilmente encontrado na net) onde ela conta da concepção das figuras e de sua inerente vocação de provocar uma direta intervenção no espaço urbano assumida , através de um objeto comum e corriqueiro em qualquer cidade (uma escultura) com tais características completamente diferenciadas (são esculturas sem pedestais, de baixíssima estatura e tempo de exposição brevíssima, fulgurante). Mas, além das observações mais óbvias das figuras em si, quando Néle discorre sobre as instalações foi quando percebi uma dimensão que eu não havia me tocado:

As primeiras aparições das figuras foram anônimas, solitárias e isoladas. Uma figura, uma pessoa de gelo, pouco maior que a palma da mão, colocada em um ponto estratégico, no meio do dia, no meio da cidade. A feitura do trabalho, seu transporte, sua instalação, e a observação da reação do público, pego de forma inesperada. 

À medida que as aparições aumentam e aumenta também o número de figuras de cada vez, surge a necessidade de auxílio de outras pessoas, o que ocasiona um efeito de trabalho de grupo. Com cem, duzentas, trezentas figuras, esse grupo, porém, já não é mais suficiente. Com isso, o próprio público assume uma posição completamente diferente, diretamente ativa, quando todos participam e tornam a instalação possível. 

Em Berlim (no tal evento ecológico) nas escadarias do Gendarmenmarkt foram mil figuras que, ao derreterem e desaparecerem em trinta minutos, se tornam eternas.

 

 

 

 

 

 

 

 
KICK-ASS. O filme é péssimo (mas com alguns detalhes interessantes). A HQ é excelente (embora com problemas pelo meio do caminho)
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 18 de Junho de 2010 03:48

 

Desta vez, eu consegui me conter e segurar a leitura da obra original antes de assistir sua adaptação cinematográfica. Na verdade, já havia lido algumas páginas, mesmo porque não tinha a menor intenção de assistir ao filme, quando dois lances me fizeram pensar. Primeiro, de repente do meio da história surge uma menina (menininha, de dez, onze anos) que salta, corre, pula e mata bandidões de gangue. Não só mata, como espanca, baleia, esfaqueia, retalha e depois, calmamente, limpa a espada do sangue, guarda a pistola no coldre e vai se embora pela janela. O segundo lance foi ter assistido, espantado, o trailer do filme e ver essa mesma cena reconstituida com pormenores, inclusive com o sangue espirrando, as espadas revoluteando, a menina (menininha), a responsável. Não acreditei que aquilo pudesse ser possível, que 'alguém' tivesse permitido que esse filme fosse produzido!
 
E pensei lá com meus botões e teclas de computador: se eu continuar lendo, por melhor que seja o filme, e por mais fiel que consiga reproduzir o teor da novela gráfica, com certeza sempre terei uma pontada de decepção, pois 'sempre poderia ser melhor' ou 'ainda mais fiel', nunca será o que se poderia alcançar dentro da minha cabeça. Deixei de lado a revista, esperei pelo filme, para assisti-lo mais 'puro', com menos influência da obra, pois quero nesse texto acompanhar, na medida do possível, em primeiro lugar as pessoas que só foram ou irão ao cinema (já que ninguém é obrigado a gostar de ler revista em quadrinhos) e não leram ou nem lerão o gibi. Sobre a revista, farei um comentário no final.
 
O filme, então.
 
Para nos localizarmos com as pessoas que ainda não sabem do que se trata a história, um brevíssimo resumo. Dave Lizewski é um garoto médio. Adolescente médio, estudante médio, de classe média. Não é rico nem miserável, não é um cdf nem faz parte da turma do fundão, não é bagunceiro nem carola, e assim são também seus amigos mais chegados. Está apaixonado, obviamente, pela menina mais bonita da escola, que mais obviamente ainda, nem sabe que ele existe. Dave só sabe fazer bem duas coisas: se masturbar com sites pornográficos e ler revistas em quadrinhos de superheróis. É quando pensa que ele poderia ser um superherói. Porque ninguém pensou nisso antes? É só vestir um uniforme com máscara e sair por aí zoando bandidos. 'Superheróis têm superpoderes, idiota', dizem seus amigos. 'o Batman não tem superpoderes', rebate. E afinal resolve seguir sua idéia.
 
Pela internet, compra uma roupa superdiferente, faz uns malabarismos em frente ao espelho e, após uns poucos e porcos exercícios físicos, se sente preparado. Não tem habilidade alguma, nenhum tipo de treinamento, mas acha que pode enfrentar uns ladrões do bairro. Dave, aliás, não está nem um pouco preocupado com injustiças sociais ou em ajudar os fracos e oprimidos, o que ele quer é usar o uniforme e ver as pessoas apontando o dedo, admirados, dizendo 'olha lá um superherói'. Bueno, em sua primeira 'missão', o que consegue é ser espancado, esfaqueado, abandonado à míngua e, para terminar, é atropelado. 
 
Não morre, passa vários meses no hospital se recuperando, tem um monte de ossos substituídos por pinos de metal, o que diminui consideravelmente sua sensibilidade à dor (o que não deixa de ser, portanto, uma espécie de 'superpoder'!). Sai do hospital, veste de novo o uniforme (o garoto é obcecado) e ajuda um rapaz que está apanhando de uma turma. Leva de novo uma surra, mas como não está sentindo dor, consegue ficar de pé. Essa luta é gravada por celulares por uma multidão que observava, curiosa, vai parar em blogs e sites, no Youtube e, de repente, KICK-ASS se torna uma sensação mundial. Era tudo o que Dave queria.
 
No entanto, há vilões de verdade na área, como o chefe da máfia local, e há superheróis de verdade, que realizam seu trabalho na surdina e não fazem questão nenhuma de serem reconhecidos e famosos. A história segue, portanto, na linha de que todas essas vertentes vão se cruzar e fazer parte de uma grande confusão final.
 
ok. Até aí, acompanha bem o enredo da revista até a parte onde eu havia lido, acrescentando ainda a apresentação da menina que está sendo treinada pelo seu próprio pai para ser uma superheroina, ela a Hit Girl, ele o Big Daddy. 
 
Bueno, o filme consegue criar uma certa expectativa para o que vai acontecer. Os diálogos são ótimos, certeiros e divertidos, recheados de piadas que funcionam; a ambientação e a cenografia é calcada para criar uma sensação de naturalismo e realismo, e até um certo ponto, consegue isso. Os personagens são caricatos e rasos, não podemos nos identificar em nenhum momento com o personagem principal que é bobalhão demais, não conseguimos nem sentir pena dele, e ainda por cima, é pessimamente interpretado por Aaron Johnson, inexpressivo e sem graça. 
 
Tudo melhora e a voltagem satírica do filme atinge picos tremendos quando aparece a dupla mais nonsense da face da terra. Chloe Moretz dá um show de carisma e versatilidade como Mindy, a Hit Girl, e o que ela faz em cena é de tirar o fôlego. Seu pai, o Big Daddy é feito pelo Nicolas Cage que nunca antes, eu simplesmente não lembro, esteve tão engraçado e simpático, enquanto 'educa' sua filha para suportar um tiro no colete à prova de balas ou usar canivetes incrementados ou experimentar pistolas de cano longo, e por aí vai. O filme vale por cada segundo em que um ou outro está presente. Por eles, o ingresso do cinema já está justificado.
 
E o filme não funciona. Momentos engraçados por aqui; cenas de violência de mentirinha por ali; uma história chapada, entupida de clichês; roteiro que se anuncia como inovador ou até crítico no começo, mas que conforme avança se rende aos artificialismos mais rasteiros. E o final, ah, o final. Tão previsível e repetitivo, tão incolor... Claro, não vou dizer aqui, mas pelo meio do filme já se sabe como tudo vai terminar, que um personagem importante vai morrer e que isso vai servir para um crescimento mental e amadurecimento do herói, que o eixo do universo vai ser realinhado, que os bandidos são bandidos, e a coragem e a valentia serão recompensadas. 
 
Acabei de assistir e fiquei matutando 'Como era possível?' e confesso que demorei a responder a mim mesmo. A história era a mesma (com as devidas e necessárias adaptações para servir como um produto cinematográfico, muitas das quais realmente indispensáveis); os personagens estavam plenamente caracterizados, a violência explícita presente...
 
Falemos dessa tal violência explícita, 'excessiva' como li em vários textos de críticos horrorizados com a brutalidade e o jorro de sangue e a falta de 'moralidade' (é verdade, alguém falou essa exata palavra). Eu li isso e tive que repensar o que acabei de assistir e me certificar de que estávamos a falar do mesmo filme. Se num primeiro momento as cenas de morte e tiroteio e luta até podem impressionar, basta relaxar um segundo e lembrar que há coisas muito piores (ou melhores, conforme o ponto de vista): somos contemporâneos do cinema de Quentin Tarantino, pombas! O melhor filme do ano passado foi 'Bastardos Inglórios' onde os 'mocinhos' escalpelavam e marcavam a testa dos nazistas. A violência e a morte e o sangue em Kick-Ass tem o mesmo peso e relevância do 'Kill Bill'. Encenadas e coreografadas no estilo de 'Matrix'. Com pausas e pedaços em câmera lenta, igualzinho do '300', assim como teve em 'Watchmen' (e em vários outros).    
 
Em suma, o problema de Kick-Ass não é o da violência em si, ou do sangue derramado, já que existe sim em quantidade, mas é sangue-de-massa-de-tomate e com a mesma dramaticidade. O que deve incomodar é justamente o ponto mais alto de todo o filme: o fato de que essa tal violência é executada, em sua grande maioria, por uma menina de 11 anos. Esse é o único ponto relevante, sua única 'originalidade'. Chloe Moretz atira, soca, e fatia, com galhardia, destreza, carisma e um charme absolutos. Fora isso, o resto é inodoro, insosso, sem consequência ou importância, não deixa marcas (em determinada cena, Hit Girl também leva uma surra e quase morre; quando a cena acaba, ela tira a máscara, mostra o rosto e não existe um único hematoma!). Tire-se esse 'detalhe' da idade, maneire-se um pouquinho a linguagem, alivie-se uma ou outra cena um pouco mais forte, e Kick-Ass vira um mero filme de aventura meio cômico e até chatinho. E acabaria-se também qualquer necessidade de se assistir a ele. 'Robocop', de  Paul Verhoeven é um filme de 1987, passa na Sessão na Tarde, e continua infinitamente mais violento, forte, impactante e tão importante para a história do cinema agora como foi no lançamento. Kick-Ass, puff...
 
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Ao nos voltarmos para a novela gráfica escrita por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr, devemos fazer um giro mental de 180° e percebermos que aqui, sim, a violência tem um sentido e uma força. Sentido objetivo, claro, narrativo, gráfico. 
 
Há dois níveis que precisam ser considerados: o do cotidiano besta, simplório, chato e plano. Da realidade da qual Dave anseia se libertar e a qual podemos inclusive identificar como igual a nossa e fazermos uma conexão com o personagem. Podemos assim até entender sua atitude e saber que ele vai se ferrar, pois somos assim e se estivessemos em seu lugar, nos ferraríamos da mesmíssima forma. É que, em geral, possuímos um certo senso de simancol do que o personagem parece não sobrar nada e não vestiremos uma fantasia qualquer para caçar bandido no meio da noite, pois sabemos muito bem o que vai nos acontecer. Quando se formaliza esse grau de aproximação entre o leitor e o personagem, quando sabemos da idêntica impossibilidade de mudar uma realidade pesada e dura, é aí que se torna tão chocante e inacreditável o aparecimento de Hit Girl e Big Daddy. Quando se estabelece que, afinal humanos somos e não existem superheróis, eis que eles aparecem! Esta sensação insofismável da presença bruta da dupla é tão forte que uma das minhas cenas preferidas é quando eles aparecem subitamente no quarto de Dave, logo depois da chacina dos traficantes de droga da região. Ele, sentado na beira da cama, desconsolado, ciente de que é, afinal, um merda e que nunca, nunca!, havia cogitado em matar alguém e já pensando em aposentar o seu bobo Kick-Ass e contente de que nunca mais veria aquela menina mortal e o grandalhão que a acompanhava... A cara dele ao ver Hit Girl e Big Daddy no seu próprio quarto é demais!
 
A violência é brusca, visual, gráfica, potente. O trabalho de Romita é insuperável, sentimos o sangue espirrar no nosso rosto, ele tem peso, sentimos sua presença. Ao executar uma vítima, o bandido encosta o revólver na nuca e dispara, e o momento da explosão preenche metade da página. Mas a morte (e sua visualização extrema) não é gratuita, tem a ver com a importância da personagem que está morrendo e sua relação com Kick-Ass e com o leitor. Ao ser capturado e torturado pelo chefão da máfia, no filme, Kick-Ass é espancado. Na HQ, é eletrocutado, com o fio preso no saco.
 
Claro, para poder produzir até mesmo esse produto pausteurizado, o diretor do filme Matthew Vaughn teve que pastar muito, não conseguiu apoio de nenhuma grande produtora (com medo de tocarem nessa história 'complicada') e foi obrigado a por dinheiro do próprio bolso. No entanto, não estou sugerindo que ele pudesse transcrever diretamente o quadrinho da novela gráfica (embora, na minha opinião, ele devesse pelo menos tentar). A questão não é somente visual, é de conceito. Vaughn pretendeu, e foi o que realizou, um produto pop, levemente mais violento do que a média dos filmes, que fizesse sucesso na garotada norte-americana. Millar e Romita provaram, ao contrário, que era possível fazer uma história de teor cínico e niilista, bem montada e narrada, e sem concessões.
 
A novela gráfica, no entanto, não está privada de defeitos. A premissa é bacana e muito interessante, a construção dos personagens é irretocável (como o filme nem chegou perto de fazer) e as cenas são tremendamente bem feitas. O problema é o roteiro. Pela metade da história, a impressão que passa é que Millar estava meio perdido com o encaminhamento da ótima premissa apresentada e não sabia saber exatamente o que fazer com ela. Correu uma história na época quando os volumes da HQ estavam sendo lançados de que Millar, em verdade, estava demorando muito para entregar o texto e que teria havido um considerável atraso por conta disso. Inclusive, o final parece-me que foi o mais demorado a ser publicado. Bloqueio criativo? Não sei. Perdi a referência de onde li isso, portanto, não sei se é verdade ou se estou somente repassando uma fofoca, mas para ser sincero não me admiraria.
 
Um detalhe concreto é o fato de que, quando o filme começou a ser rodado, o último volume da série ainda não havia sido publicado. O que faz com que os respectivos finais e conclusões sejam responsabilidade direta de cada um e completamente independente um do outro. E o final da HQ, ah, o final...
 
Se ele, o final, realmente demorou a ser publicado, se o meio da série é meio complicado, não importa. A conclusão de Millar é primorosa, e profundamente coerente com a premissa e a idéia original da história como um todo. Um belo final para um belo trabalho.
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 
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Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 11 de Junho de 2010 01:38
 
Antes de qualquer coisa, verifico o estado da corrente. Está em perfeita ordem e até um pouco brilhante (afinal, é nova), mas a sua pele ao redor do couro ficou levemente machucada, dá para perceber um pequeno vergão vermelho. Sinal de que, no final das contas, você ficou mexendo o pescoço e tentou arrancar o cadeado da barra da cama, devagar para que eu não percebesse. Rio silencioso, rio pra mim, e suspiro desanimado, estou ficando mesmo! cansado de suas artimanhas, das pequenas rusgas, esta prosaica babaquice microscópica cotidiana e corriqueira. Repetitiva.
 
Volto para a sala e sento no exato ponto onde posso ver o terço da sua bunda refletida pelo pedaço do espelho do guarda-roupa, e suspiro de novo, agora de alívio. Finalmente passou toda essa babujada intragável e irritante de final de ano, os artifícios acabaram e toda a miséria da hipocrisia humana contida em poucos dias explodindo com a mesma profundidade dos fogos de artifícios: brilhante e vazia, dispersa em fumaça. ISSO aprendi contigo: este desprezo, essa falta de respeito, vieram de você. Ainda lembro de quando eu tentava insistir de que havia alegria, sim; que por poucos momentos (por mínimos que fossem) podia-se sonhar; que o tal sacolejar de corpos de um lado para o outro não era somente uma troca de becos sem saída. A minha única resposta era a sua cara de escárnio, de desprezo absoluto, de nojo pela patetice minha, virava mais um copo e me dava as costas. Demorou, mas aprendi. Segui seus rastos, sua linha. Entendi o que deveríamos fazer: esquecer do mundo, se fechar na ostra egoísta e pessoal, mamar o dedo reclamando da injustiça planetária, falar mal das irmãs e da mãe neurótica e prepotentes, reclamar da falta de pagamento da pensão do ex-marido, sufocar de indignação toda vez que um golfinho na Malásia ou um pinguim do pólo norte ou um guaxinim-guará são mortos com requintes de crueldade pela humanidade decadente e materialista, preocupar-se com o fecho do zíper do vestido azul rasgado que nunca mais foi consertado, entrar em surto e gritar toda vez que a torradeira falhar ou a cada falta da empregada (até ela deixar de vir), e fechar os ouvidos para a felicidade alheia.
 
FELICIDADE. Alheia. Isto é, a dos outros. Existe, sabia? Algumas pessoas acreditam de verdade nisso e pautam suas vidas a partir desta crença. Eu acreditava. Mas sua eficiência é assombrosa. Agora estamos assim: não ligamos e ninguém nos liga ou lembra ou se importa conosco. Para quê se importariam? Só ouviriam de novo a sua famosa frase (dita de tantas formas diferentes e com tantos tons de voz, e significando sempre o mesmo): Fiquem na sua, Nós estamos muito bem, Sozinhos, Não precisamos de Ninguém. E eles ficaram na deles. As pessoas também aprendem e enchem o saco de tanta empáfia e orgulho. Ou possuem muito menos paciência do que eu. Bastam-lhes a felicidade própria ou (caso seja esta realmente uma quimera) a alegria da ilusão.
 
No entanto, sabe o que era pior de tudo? É que nada era explícito. Nada! Visto por fora, éramos um casal magnífico, ‘feitos um para o outro’ (quantas vezes ouvimos isso?), ‘lindos’, ‘lindos’. Nunca houve cenas. Escândalos. Histerias. Você trabalhava de outro modo. Subterrâneo. Sub-reptício. (conhece essa palavra? o seu personal-cultural-trainer mostrou no dicionário? ou ele também nunca ouviu falar?). Escondida. Quando houve os gritos, aconteceram para mim, sem testemunhas. E foram poucos, porque científicos: na exata medida do melhor momento para atingir e provocar a dor no fundo da medula. Uma ponta rombuda de agulha direto no crânio, no meio de uma enxaqueca. O sapato de bico chutando o saco. O soco na barriga da grávida. Um alicate arrancando o bico dos mamilos. Ah, você era perfeita. Perita. Expert. 
 
Porém
 
Até mesmo você deve se cansar um dia, não? 
 
Pois, eu estou. Não agüento este apartamento, não agüento olhar pelo espelho para esta tua bunda inchada de celulite, não suporto esperar outro ano para observar outros fogos acenderem e apagarem e pensar que eles tiveram, os artifícios, mais emoção em alguns minutos do que nós fazendo sexo nos últimos anos. E pior. Nem recordando de quando foi a última vez. Admito: a minha alma sente-se sugada, acabada. A perspectiva de uma facada no peito ou pelas costas não me anima, pois sei que você tem consciência do quanto eu a apreciaria.
 
A chave da corrente está comigo, no meu colo. Basta me pedir e abrirei o cadeado. Libertarei seu pescoço e nos libertaremos. Talvez façamos sexo ou não. Talvez nos beijemos ou não. Talvez sequer nos olhemos. O importante é que abriremos esta maldita porta, sairemos deste apartamento infernal, sentiremos o calor do sol. Talvez refaçamos nosso casamento ou nem nos vejamos mais. Mas estaremos vivos.

Basta você me pedir a porra da chave.  

 

 

in  Contos

 

 

 

 

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