"DESCONCERTOS: RAZÃO E SENSIBILIDADE NO FIM DE SÉCULO"

prefácio de Márcia Denser para o livro DESCONCERTO, de Claudinei Vieira

Este é o primeiro livro de Claudinei Vieira mas muitos virão depois dele, podem apostar. Porque Claudinei é um eterno desconcertado, um observador poético totalmente low-profile, fazendo sua prosa naquele estilo esfriado, que se realiza magnificamente em português, lingua requintadíssima, esmerilhada desde Machado para lidar com todo o desconcerto do mundo.

Aliás, segundo Carlos Felipe Moisés, o mundo se desconcerta a cada virada de século, o velho e o novo coexistindo, tensionados, ora, veja-se, o final do século dezenove deu Proust, deu Joyce, inaugurando e reinventando a linguagem literária para todo o século vinte que se encerrou há pouco de forma absolutamente desconcertante.

Porque os contos de Claudinei inventariam o cotidiano sulamericano neste fim de século marcado pela exclusão, o cotidiano mais pedestre e brasileiro no qual supostamente ninguém parece interessado. A começar dele próprio e de seus personagens.

Assim é que com uma linguagem desprovida de emoção, uma linguagem fria – dos inventários, dos relatórios, onde não faltam cifras, números, estatísticas – o narrador se aproxima dos seus temas e personagens com um olhar paradoxalmente compassivo, humano, solidário, e este é o grande achado literário de Claudinei Vieira: a combinação da linguagem fria à visada quente, mixando imprevistamente objetividade e compaixão. Razão e sensibilidade. Pelas artes e manhas de uma poética extremamente original.

Ensina a psicologia que é preciso integrar duas funções superiores da consciência, no caso, razão e emoção, para se proceder a um julgamento moral correto, e não duvide o Leitor que é exatamente essa complexa operação que consuma literariamente nosso Autor que assim avalia o drama humano subjacente às camadas relegadas da população, no ponto de acumulação da injustiça social. Porque assim talvez ele comece a entender, porque assim talvez ele comece a envergonhar-se.

Então, é preciso saudar essa estréia de Claudinei como extremamente bem-vinda, uma vez que ele também pertence à essa geração 90, considerada por alguns intelectuais como acrítica, desengajada, indiferente à problemática político-social num país onde precisamente ela é o mais urgente, o onipresente, sobretudo numa vigência onde o econômico é hegemônico, sobretudo agora quando se proclama os finais de tudo: da história, da arte, dos estados-nação, do universalismo, do sujeito da oração e da história. O fim do humanismo. O fim do cidadão. Em nome do dinheiro.

É sabido que o nosso padrão competitivo internacional, íngreme em face das realidades da vida popular, se compõe à maravilha com nosso descaso secular pelos pobres. Só por coração cristão ou deformação esquerdista jurássica, os cidadãos da elite, aliás agora policlassista, sentirão empatia pelos que sobraram.

Segundo R. Schwarz, o divórcio entre economia e nação é uma tendência cujo alcance ainda mal começamos a imaginar: afinal, o que significa uma cultura que já não articula um projeto coletivo de vida material, e que tenha passado a flutuar publicitariamente no mercado apenas como casca vistosa, como mais um estilo de vida a consumir-se entre outros?

Neste Desconcerto, Claudinei Vieira não propõe respostas mas formula novas perguntas que pouco a pouco lançam luzes inesperadas – desconcertantes – que ajudam a entender a sociedade brasileira contemporânea em sua complexidade, em sua perversidade – em sua humanidade. 

 

 

 

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