'Neuromancer': a matriz de Matrix
Escrito por Claudinei Vieira   
Qua, 04 de Novembro de 2009 23:44

 

Vejamos se estes termos são reconhecíveis: Matrix. Zion. Realidade virtual. Um mundo pós-apocalíptico supertecnológico e decadente, dominado por estranhas e obscuras corporações. Um anti-herói violento e desajustado na sociedade "normal". Uma heroína de forte personalidade apaixonada pelo herói. Contrabando de poderosos programas de computador. Conexão com a realidade virtual com viajem pelo cyberespaço através de trodos ligados diretamente ao cérebro. Vestimentas negras, forradas de couro preto, óculos espelhados. IA (Inteligência Artificial) hiperdesenvolvida. Narrativa repleta de termos hackers misturada com um certo misticismo mezzo conteúdo filosófico mezzo explicações científicas... 

 
Pois é. Você é uma pessoa inteligente, entrou neste site, viu o título deste artigo e a figura do lado, espero que tenha se tocado que não estou me referindo ao filme MATRIX. 
 
Case é um cowboy do cyberespaço, provavelmente o melhor criminoso cyberespacial que já existiu. No entanto, tentou roubar seus patrões e foi penalizado com uma toxina que o impede de entrar na Matrix de novo. Torna-se um excluído, um ladrão menor que comete crimes cada vez menores até virar um suicida em potencial. Nesse momento, Molly, uma durona e bela samurai-hacker criada pelas ruas, acena com um emprego e a possibilidade de voltar a ser de novo o antigo profissional. Sem perguntas, nem questionamentos. Precisavam de sua habilidade, ele precisava voltar a viver. Simples. E assim Case entra em um turbilhão de violência, tecnologia, sexo e drogas (aqui há pílulas de muito mais cores do que só vermelhas e azuis).
 
"NEUROMANCER" foi publicado pela primeira vez em 1984 (tem, portanto, mais de vinte anos) e significou um divisor de águas na história da ficção científica. Provocou imensa sensação. Cunhou, por si só, um autêntico gênero à parte, o Cyberpunk, denominação pensada a posteriori por outro autor, mas que caiu tão bem que é quase como se tivesse criado por Gibson. Desta forma, este romance tornou-se o representante direto e imediato da explosão tecnológica dos computadores e descendente de toda uma linhagem literária, como a dos romances (e filmes) noir e das previsões catastróficas de um mundo assolado por guerra nuclear. 
 
Com o sucesso, Gibson tornou-se naturalmente o líder do "movimento" cyberpunk que preconizava uma quebra com as anteriores estruturas de construção da literatura de ficção científica. O movimento não vingou, ninguém repetiu o sucesso de "Neuromancer". Aliás, nem mesmo o próprio Gibson, com seus outros livros. As razões para isso fornecem farto material para muitas especulações. Outra discussão infinita é, logicamente, o filme dos irmãos Wachowski. Se "MATRIX"/filmes constituem uma utilização, desenvolvimento ou absurda apropriação das idéias de Gibson (e, pior ainda, sem os devidos créditos), ainda está por se resolver satisfatoriamente. Aliás, Neo, isto é, Keanu Reeves chegou a protagonizar um outro filme, "Johny Mnemonic", baseado diretamente em livro de Gibson (a péssima adaptação relegou este filme ao fracasso por justa causa).
 
A última edição que li foi da  editora Aleph que realizou um belíssimo trabalho, com tradução nova, várias notas explicativas e a elucidativa introdução realizadas por Alex Antunes, jornalista e ele mesmo escritor de FC. A capa é linda, o projeto gráfico perfeito, a ilustração magnífica e instigante. Resta saber se o livro mantém o mesmo impacto. 
 
Sinto dizer, mas vinte e cinco anos não fizeram muito bem a "Neuromancer", não. Talvez a imensa quantidade de cópias tenha diluído as idéias originais. Talvez a trilogia-"Matrix", com sua alucinante metralhadora de imagens e efeitos especiais esteja projetando uma sombra empobrecedora sobre a obra. Talvez o ritmo pausado e progressivo, pretensamente tenso e trabalhado do livro entre em contraste com a moderna velocidade narrativa a que estamos habituados. Talvez eu não tenha ligado os trodos corretamente. O fato é que a sensação é de um poderoso deja vú (epa, palavrinha perigosa neste contexto). 
 
"Neuromancer" está datado? Creio que não se possa dizer com certeza; ainda não. Talvez seja melhor dar mais um tempo, sair da sombra "matrixiana", se tal coisa for possível, e verificar se há realmente qualidades intrínsecas que se mantenham e possam manter sua aura de clássico da literatura. Por enquanto, para mim, foi decepcionante.
 
 
 
in Resenhas
 
 
 
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