O funeral de Edgar Allan Poe. 160 anos depois de sua morte.
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Escrito por Claudinei Vieira   

corvo

Há uma certa coerência mórbida nisso. 160 anos atrás, Edgar Allan Poe morreu e foi enterrado e poucas pessoas souberam ou se importaram. Diz-se que havia 10 pessoas em seu funeral. Ontem, domingo, dia 11 de setembro, a cidade de Baltimore rendeu homenagens, dentro de uma série de atividades em sua honra realizadas durante todo esse mês, e ofereceu um funeral de pompa, acompanhado agora de centenas de admiradores de sua obra.
 
As 'Histórias Extraordinárias', de Poe

poe
Edgar Allan Poe foi um poeta norte-americano do século XIX, com um lirismo carregado de um profundo senso filosófico e metafísico. Foi o contista que primeiro pensou criticamente a estrutura orgânica do conto e revolucionou a literatura de suspense e de "clima", escrevendo algumas das histórias mais aterrorizantes que já foram escritas; sua prosa barroca, pesada, densa e sufocante norteou o que ficou conhecida como literatura "gótica". Foi o inventor da literatura policial moderna. Como jornalista e editorialista, foi um dos definidores da imprensa (e da mídia em geral) como atualmente conhecemos. O que mais não poderia ter feito, produzido e pensado se não houvesse morrido com somente quarenta anos?
 
Difícil, talvez impossível, apreender em sua totalidade a maldição pessoal que Poe parecia carregar e que o perseguiu durante toda a sua vida. Sua inteligência extraordinária e sua ultra-sensiblidade não foram suficientes para conter seu alcoolismo, o vicio do jogo e sua saúde frágil cada vez mais debilitada, que destroçaram sua carreira como jornalista e escritor. Como seria possível saber o quanto sua mente complexa e angustiada alimentava-se dos sofrimentos e constantes infortúnios de sua existência?
 
Poe nasceu em 1809, em Boston. Sua mãe morreu quando ele tinha dois anos e foi adotado por uma família diferente do da sua irmã. Publicou seu primeiro livro de poemas aos 16, com boa acolhida. Aos poucos, foi sendo reconhecido como importante crítico literário, conquistou alguns prêmios com contos, começou a fazer carreira como conferencista. O alcoolismo, no entanto, impossibilitou que mantivesse empregos fixos ou assumisse compromissos permanentes, pois eram sistematicamente quebrados. Os poucos recursos adquiridos com a literatura e o jornalismo não permitiam que concretizasse seu sonho de possuir sua própria revista, embora seus escritos fizessem bastante sucesso.
 
Vagou por vários revistas e jornais e revezava períodos de intenso trabalho intelectual com inatividade forçada. A morte de sua mulher por tuberculose após profundos sofrimentos representou a gota d'água. Durante mais dois anos escreveu muito e publicou alguns de seus mais importantes trabalhos, em um ritmo febril. Foi encontrado inconsciente em uma rua e morreu no hospital depois de quatro dias de febre e delírios. 
 
lápide de Poe
Terror, morte, decadência, misticismo, angustia, crime, culpa, são alguns dos temas que percorrem toda sua obra. "Histórias Extraordinárias" é um apanhado das várias facetas do escritor. Podemos presenciar o nascimento das histórias policiais acompanhando o raciocínio frio e lógico de Auguste Dupin em "Os Crimes da Rua Morgue" e "O Mistério de Marie Rogêt". Dupin é a matriz da qual Conan Doyle se serviria para criar o seu Sherlock Holmes. Aqui estão algumas das mais clássicas histórias de terror, como a famosíssima "O Gato Preto" ou "O Poço e o Pêndulo", o "singelo" "Berenice" ou o impressionante "A Queda da Casa de Usher", histórias que lemos com a respiração suspensa e o coração batendo de tão fortes e marcantes. Há exercícios filosóficos como em "William Wilson" ou fábulas medievais.
 
Não é costume nas antologias de contos de Poe incluir alguns dos seus poemas, muito menos o clássico "O Corvo", o que para mim é uma grande falta. 
 
 
 
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