Os Invictos de William Faulker
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 14 de Dezembro de 2009 06:15

 

invictos.jpg

William Faulkner é reconhecidamente o dono de um estilo rebuscado, cacofônico ou "multifônico", em aparente contradição com este "Os Invictos", sua última obra, publicada no ano de sua morte em 1962. Suas histórias, em geral, são construídas com um intenso e constante fluxo de idéias ininterruptas, uma sucessão de vozes ou narradores que se misturam dificultando sua identificação; utilização de um tempo narrativo subjetivista marcado por flashbacks que comentam ou explicam a narrativa, "atravancando-a"; descrição de estados de alma e grandes painéis históricos (embora sempre mantendo um sentido de tempo com começo e fim, mesmo que seja meio difícil reconhecer onde está um ou outro, a princípio).

Exemplar disso tudo é sua obra mais famosa, "O Som e a Fúria", onde quatro vozes se alternam e uma delas é a de um débil mental de quarenta anos e duas personagens/narradoras, de épocas diferentes, tem o mesmo nome. Em "Absalão, Absalão", precisamos tomar cuidado para poder reconhecer de qual momento histórico está se tratando já que as diversas linhas narrativas se cruzam intermitentemente. 

Poderia desembocar em uma salada indigesta, não fosse a maestria do autor. Suas obras não são simples brincadeiras de montar. Cada parte, cada página de seus livros são pedaços de uma consciência maior que vai se construindo e/ou se revelando à medida que se desenvolve. Uma é tão perfeitamente encaixada com as outras que não se concebe como poderia ser diferente. Resultado, óbvio,  do trabalho de um mestre. 

Assim, ao término da leitura da cada um de seus livros, ficamos conhecendo não só um pouco mais do orgulho ancestral de um Sul norte-americano decadente e mergulhado em valores ultrapassados e em glórias antigas e desaparecidas: conhecemos melhor o próprio ser humano. Yoknapatawpha, o mítico território criado por ele como cenário da maioria absoluta dos seus escritos, representa todo o Sul concentrado em um só lugar e, ao retratar os conflitos emocionais e existências desta população, acaba descrevendo sentimentos e conflitos universais. Ler Faulkner é participar de uma intensa experiência estética.

"Os Invictos" (que já foi publicado no Brasil como "Os Desgarrados") possui a curiosa fama de provocar um certo choque para quem conhece somente o Faulkner mais "difícil". Não tem aqueles flashbacks complicados e tortuosos; a trama é simples, objetiva e linear (isto é, com um começo, um entrecho pelo meio, e uma conclusão, tudo nos seus "devidos" lugares!), e um enredo que, resumido, lembra um pouco aqueles filminhos da Disney dos anos 70: o personagem principal é um menino de 11 anos, Lucius Priest, que, junto com mais dois adultos, Boon Hogganbeck, um agregado da família, e Ned McCaslin, um empregado negro, pedem  "emprestado" o carro recém-comprado pelo pai de Lucius quando este se ausenta por alguns dias. A idéia é experimentar o carro, divertir-se um pouco, conhecer outras cidades (ou, no caso de Boon, matar algumas saudades) e voltar antes que o dono percebesse. É lógico que tudo dá errado: eles perdem o carro em uma aposta absurda e, até voltarem para casa, vão passar por diversas peripécias. Tudo embalado em uma narrativa exuberante, movimentada, alegre e inconsequente. Isto é, nada muito do costumeiro Faulkner.

A lenda diz que Faulkner estava cansado de ser adorado pela crítica, a ponto de ganhar o Nobel e o Pulitzer, e ao mesmo tempo um fracasso editorial. Seus livros eram uma nulidade em termos de venda, nunca ganhou dinheiro com sua literatura, fora os prêmios e o tempo em que passou como roteirista em Hollywood, e se tivesse dependido do "grande público" teria morrido de inanição. Assim, no final de sua vida, teria decidido fazer uma obra "popular". Wladir Dupont, o tradutor desta edição da editora ARX, conta que alguns críticos achavam que Faulkner teria amolecido por causa da idade (um termo eufemístico para pura decadência).

Essa aparente simplicidade é duplamente enganosa. Primeiro, porque não era tão original assim no conjunto de sua obra. Basta lembrar da história contida em "Palmeiras Selvagens" do prisioneiro que tenta fugir de Sing-Sing através do rio Mississipi e cuja narrativa enxuta e poderosa nada fica a dever a qualquer livro de aventura.

Por outro lado, a densidade dos personagens e das situações pelas quais passam, os conflitos morais colocados, a realidade social mostrada, com prostitutas exploradas, ladrões, malandros e assassinos, policiais corruptos, o mundo do jogo e das corridas de cavalos está bem longe de uma simplificação. A viagem de Lucius representa sua passagem de uma criança educada em rígidos valores de cavalheirismo e ingenuidade infantis para um rápido e brutal amadurecimento e entendimento das ambiguidades do mundo adulto. Tal e qual a passagem de um Sul rural e aristocrático sendo alcançado e ultrapassado por um rude progresso, representado pela máquina-carro. Temas sempre recorrentes na literatura de Faulkner. 

Além do que, toda essa exuberância e alegria, otimismo e aventureirismo citados acima não escondem de forma alguma um sabor amargo e um pessimismo latente que está sempre pelas entrelinhas. O livro é narrado por um Lucius já velho e assentado que busca em suas memórias as bases de sua virada mental e espiritual denotando nostalgia e saudades destes "velhos tempos".

No entanto, é bem verdade que é muito gostoso se deixar levar por estas poeirentas estradas trilhadas pelo jovem Lucius e seus amigos e por estas linhas não costumeiramente "fáceis" de um dos maiores escritores da humanidade.

 

in Resenhas

 

 

Comentários (0)
Escrever um comentário
Your Contact Details:
Comentário:
Security
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.

!joomlacomment 4.0 Copyright (C) 2009 Compojoom.com . All rights reserved."

 

Últimos Comentários

RSS Feeds