Os soldados de Salamina
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 18 de Setembro de 2009 07:33

Guerra Civil Espanhola. Reconhecida como o palco das experimentações político-militares que prepararam a Segunda Guerra Mundial. Empolgou a mente e a aspirações revolucionárias do mundo inteiro. De um lado, os fascistas que, com a ajuda explícita do aparato nazista de Hitler e dos fascistas italianos de Mussolini, golpearam, perseguiram e mataram um governo legalmente constituído; do outro, os republicanos, cujo exército era constituído de idealistas abnegados e recebeu ajuda de milhares de voluntários, de todos os paises, cientes de que ali estava sendo escrito o futuro do planeta. Luta desigual, arduamente combatida, milhares morreram, mas as máquinas fascistas foram mais poderosas e impiedosas, instaurando umas das mais cruéis ditaduras da história da humanidade e deixando marcas profundas na Espanha até hoje.
 
Nos estertores da guerra civil, quando já estava claro que os fascistas venceriam, os republicanos recuavam e tomavam suas ultimas atitudes. Em um destes últimos grupos, estava prisioneiro Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange, grupo de intelectuais de direita que montou as bases ideológicas para o advento do fascismo espanhol. Mazas era, portanto, um prisioneiro importante que tanto poderia ser trocado por outros prisioneiros quanto ser fuzilado como um ato de retaliação. Ele e mais alguns companheiros estão destinados a serem fuzilados. As armas disparam. Em uma fração de segundos, Mazas se joga, escapa das balas, cai em uma ribanceira e se esconde no matagal, enquanto escuta os soldados republicanos procurando-o e os cachorros latindo. Até que um soldado o encontra. Seus olhares se cruzam. O do soldado é inescrutável, incompreensível para Mazas. Este esperaria, talvez, ódio, repulsa, nojo, mas encontra uma espécie de indiferença, quem sabe até alegria (?). Gritam “Tem alguém aí?”. O olhar demora-se, o tempo paralisa-se. Sem deixar de olha-lo, o soldado grita de volta “Por aqui não tem ninguém”, vira-se e vai embora. 
 
Sessenta anos depois, esta história sobre o instante daquele olhar que salvou Sánchez Mazas é contada para Javier Cercas, um romancista frustrado, que havia abandonado a carreira de jornalista para se dedicar somente a escrever livros, mas cujo fracasso o obrigara a voltar para a antiga profissão. A história o fisga. Aos poucos, procura saber mais da vida do falangista, conhece algumas pessoas ainda vivas que o conheceram, visita alguns lugares históricos, e uma coisa puxa a outra e, sem a intenção expressa, quase sem perceber, a antiga paixão, a necessidade de escrever toma conta do seu ser. A ambição retorna. Escreve um artigo sobre Mazas para o jornal, mas isso é insuficiente. Escreve uma biografia sobre dele, mas falta sempre algo que não consegue identificar. Oscilando entre a história que poderia se tornar o livro de sua vida e o espectro do fracasso que o atormenta, Cercas vai descobrindo uma outra realidade, descobre uma outra Espanha, descobre-se a si mesmo. 
 
Rafael Sánchez Mazas é uma personalidade histórica real; Javier Cercas é fictício, embora tenha a “coincidência” do mesmo nome do autor. As paixões são autenticas. Mas, este não é um livro sobre a Guerra Civil, nem mesmo sobre uma das pessoas responsáveis pela ascensão do fascismo. Até mesmo a Espanha (que, até prova em contrário, é um lugar real) é somente um cenário.
 
soldados de salamina
Trata-se da superação de si mesmo. Da procura de heróis, dos esquecidos e dos desesperados. Trata-se das marcas que nem sabemos que existem dentro de nossa existência. Trata-se de literatura do mais alto grau. São duas histórias que se cruzam, abrindo caminho para diversos outros enredos, de dezenas de outros personagens, as quais todas têm sua importância, tem seu momento, inclusive o leitor, que se percebe envolvido para sempre, perdido na preponderância daquele olhar. São duas poderosas vias de comunicação que, a principio, parecem idênticas, a do falangista que fugiu da morte e continuou sua vida, e a do jornalista que fugiu do pântano de sua vida de jornalista, tudo devido aquele olhar do soldado republicano. Isto não será verdade. Pois que, apesar de tudo, as vias, por um lado, levará para a decadência e a insalubridade de uma vida sem sentido; e a outra será de elevação, de sublimação, redenção.
 
No entanto, há mais. Deixe-se de lado as recomendações laudatórias que acompanham a capa deste volume, mesmo que sejam escritas por Mario Vargas Llosa, pois elas nunca dariam conta da profundidade da emoção e do poder desta obra. Esqueça-se, também, do bonito trabalho gráfico que traz uma foto do grande Robert Capa. Deixe-se levar por esta aparente simplicidade e facilidade da escrita de Javier Cercas, o autor, que parece lembrar a estrutura de um romance bestseller qualquer. Tudo isso é enganador. A cena do olhar é somente o começo. Há o som do passodoble que nos acompanha com insistência. Há a cena do canto do soldado. Há a cena da dança. Há o desespero do autor em busca de sua auto-afirmação. Há o encontro com o velho soldado, a busca do herói que sabemos nunca existir, há a Espanha moderna, acabada, fruto da velha Espanha retorcida, fundida de uma guerra fratricida. E, de novo, há o passodoble, constante, insistente, essencial.

“Quis Deus, com seu poder, 
fundir quatro raios de sol 
e fazer com eles uma mulher, 
e ao fazer sua vontade 
em um jardim da Espanha nasci 
como a flor no roseiral. 
Terra gloriosa do meu bem-querer, 
Terra bendita de perfume e paixão, 
Espanha, em toda flor a teus pés 
Suspira um coração. Ai de mim, pena mortal, 
porque me afasto, Espanha, de ti 
porque me arrancam do meu rosal”.

Não há problema do leitor, ao chegar na última página, acabe chorando de emoção. Será somente natural. Será simplesmente o reconhecimento de que está diante de uma das mais belas obras das últimas décadas.

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